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sábado, 15 de maio de 2010

ENTREVISTA COM VALÉRIA PIASSA POLIZZI

VALÉRIA PIASSA POLIZZI
Por Ramon Mello



VALORIZAÇÃO DA VIDA

Valéria Piassa Polizzi, é o nome da autora do famoso livro Depois Daquela Viagem (Editora Ática) – autobiografia de uma menina que contraiu o vírus HIV, aos 16 anos de idade, na primeira relação sexual. Para quem não conhece, recomendo essa leitura, que nos faz valorizar a vida, nos despir de preconceitos. E, principalmente, entender que todos estamos vulneráveis à Aids.
Conheci a história de Valéria, na pré-adolescencia, e fiquei extremamente emocionado, com vontade de abraça-la. E parece que a vida se encarregou coloca-la no colo e cuidar para que pudesse ser o exemplo que é para todos nós. Aos trinta e seis anos, formada em jornalismo, ela tem lutado para inserir a educação sexual nas escolas, para jovens e adultos.
Dez anos depois da publicação do seu primeiro livro, a paulistana já tem mais dois títulos publicados: Enquanto Estamos Crescendo (Editora Ática) e Papo de Garota (O Nome da Rosa Editora e Editora Símbolo). Isso sem contar que Depois Daquela Viagem tem mais de trezentos mil exemplares vendidos, e já foi traduzido na Itália, em Portugal, na Alemanha, na Áustria, na Espanha, no México e em alguns países de América do Sul.
A conversa aconteceu por e-mail porque Valéria estava envolvida com o Dia Mundial Contra a Aids, ministrando palestras sobre o tema, como faz todos os anos.

ENTREVISTA COM VALÉRIA
CLICK(IN)VERSOS – Depois Daquela Viagem foi lançado em 4 de dezembro de 1997. Qual é o saldo dez anos depois da publicação do seu primeiro do livro? O que mudou depois disso?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Quando resolvi publicar o livro, não sabia qual seria a reação do público e da mídia em geral. Na época havia muito preconceito em relação ao tema, a Aids era sinônimo de morte no Brasil. Mas para nossa grande surpresa o Depois Daquela Viagem foi muito bem aceito e a mídia entendeu a mensagem que eu queria passar: Como era a vida de quem tinha o vírus. E que a Aids pode acontecer com qualquer um, na verdade não existe grupo de risco, todos são vulneráveis e quem não quer se contaminar tem de se cuidar. O maior sucesso do Depois Daquela Viagem, para mim, foi que ele passou a ser adotado em escolas de todo o país. Eu defendo, bastante, a educação sexual contínua nos colégios e o livro veio ajudar a introduzir o assunto. E com isso passei a ser chamada para dar palestras em todo o Brasil, virou um trabalho sério.

CLICK(IN)VERSOS – No Brasil, Depois Daquela Viagem tem mais de trezentos mil exemplares vendidos. E no exterior foi traduzido na Itália, em Portugal, na Alemanha, na Áustria, na Espanha, no México e em alguns países de América do Sul. Com se sente com isso?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Muito feliz! É maravilhoso saber que sua mensagem chegou em cantos longínquos do Brasil e do mundo. É surpreendente receber e-mail de leitores de outros países elogiando seu trabalho. Em janeiro de 2007 fui ao México dar palestras em escolas e universidades a convite do Governo do Estado do México e da Editora Santillana que publicou o livro no país. O Depois Daquela Viagem foi adotado em escolas públicas mexicanas para tratar do tema da Aids. Foi uma experiência e tanto para mim, levar informação para outra cultura e aprender tanta coisa nova com os jovens de lá. Foi tão enriquecedor que acabou virando um livro-reportagem que fiz para o TCC - Trabalho de conclusão de Curso - da faculdade de Comunicação Social em jornalismo que termino esse ano.

CLICK(IN)VERSOS – Algum cineasta já teve interesse de fazer um filme sobre a sua história?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Estamos pensando primeiro em teatro. O dramaturgo e jornalista Dib Carneiro Neto adaptou o Depois Daquela Viagem para os palcos. Já fizemos uma leitura do texto no teatro do Masp em São Paulo e no Rio de Janeiro. Gostamos muito do resultado e agora o pessoal está correndo atrás de patrocínio para montar a peça.

CLICK(IN)VERSOS – Como foi o retorno do segundo e o terceiro livro: Papo de Garota e Enquanto Estamos Crescendo?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Foi muito bom. Os adolescentes também gostaram bastante e tanto o Enquanto Estamos Crescendo, como o Papo de Garota, também são usados em escolas. E para mim foi um processo novo escrever ficção.

CLICK(IN)VERSOS – Por que a escrita?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Eu sempre amei histórias. Quando era adolescente fazia teatro e sonhava em fazer cinema. Escrever o Depois daquela viagem me abriu um outro universo. Num trabalho de atriz ou cineasta, por exemplo, você cria em cima de um texto já existente e todo o processo é de muito trabalho em grupo. Para escrever um livro a sua criação é a primeira etapa e isso é fascinante. Hoje não me imagino fazendo outra coisa. Adoro criar quieta, sozinha, no meu canto. Somente as palavras e eu.

ENTREVISTA PARTE II

Por Ramon Mello

CLICK(IN)VERSOS – Como funciona seu processo de criação?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – É uma viagem. Na hora de sentar e escrever é um trabalho intenso e solo. Não solitário, porque quem está envolvido com histórias e personagens nunca se sente sozinho, pelo menos eu não. Mas antes disso tem de haver muita leitura e observação do mundo. Para o meu último trabalho, sobre a Viagem ao México, utilizei também bastante pesquisa, porque conto um pouco da história do país, desde a época dos astecas, a chegada dos espanhóis, a colonização a independência, a revolução... E acabei descobrindo que, além do processo de criação, a pesquisa também pode ser ‘viagem’ intensa e prazerosa.


CLICK(IN)VERSOS – Você formou-se em Jornalismo. Por que você deixou de escrever para a Revista Atrevida?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Eu tive uma coluna na Atrevida por sete anos. Numa época, quando a editora passou por mudanças estruturais e financeiras disseram que não poderia mais me manter. É claro que tenho boas lembranças de um trabalho que foi tão legal, mas por outro lado foi bom encerrar um ciclo o que sempre nos impulsiona a descobrir outras áreas, caminhos e crescer. Eu fiz jornalismo, mas não pretendo trabalhar como jornalista, numa redação, por exemplo. Minha praia são os livros. É onde mais gosto de me expressar.

CLICK(IN)VERSOS – Quais são os escritores que mais gosta?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Gosto muito de Amós Oz, um israelense autor de A Caixa Preta e Fima. Os latino-americanos Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Carlos Fuentes me encantam. Da língua portuguesa, Machado de Assis, Saramago, Clarice Lispector, Ligia Fagundes Telles, entre vários outros. Gosto muito também de ler livros de autores de outras nacionalidades que contam sobre a cultura e história de seus países. Só para citar alguns exemplos: a sul-africana Nadine Gordimer (A arma da casa); o israelita A.B.Yehoshua (Viagem ao fim do milênio); o japonês Jun'Ichiro Tanizaki (As irmãs Makioka); e uma chinesa chamada Pearl S.Buck. (A boa terra, Os filhos de Wang Lung e Casa dividida).

CLICK(IN)VERSOS – Quando sairá o próximo livro? Já tem nome? Do que se trata?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Espero que saia em breve. Já mandei o texto para análise nas editoras. E é o da Viagem ao México.

CLICK(IN)VERSOS – Como foi a experiência de morar na Áustria? Por que escolher esse país?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Namorei um austríaco por três anos, quando nos casamos fomos morar na Áustria por mais três anos. Foi uma época boa, num vilarejo bucólico em meio a campos de girassóis e estudei alemão para estrangeiros na universidade de Viena. Eu estava cansada de dar palestras sobre aids e foi ótimo fazer uma pausa, foi lá que escrevi o Enquanto estamos crescendo. Quando voltamos ao Brasil, o Markus não se acostumou no país e acabamos nos separando, mas somos amigos e mantemos contato até hoje.

CLICK(IN)VERSOS – Tem vontade de escrever poesia?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Não é minha praia, deixo para os grandes.

CLICK(IN)VERSOS – A pesquisa mais recente do Ministério da Saúde revelou que cresceu a contaminação entre os heterossexuais, principalmente entre as mulheres. O que você sente quando lê esses dados?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – O Brasil tem uns dos melhores programas de tratamento de Aids do mundo, pois o acesso a medicamentos aqui é universal. Infelizmente ainda deixa muito a desejar no que diz respeito à prevenção.

CLICK(IN)VERSOS – Qual a importância de alguém assumir publicamente ser soropositivo?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – É importantíssimo um país ter referência de soropositivos em sua cultura. Aqui no Brasil, personagens como Betinho, Hebert Daniel, Cazuza e Sandra Bréa e muitos ativistas, tornaram a nossa convivência com o vírus mais aceitável. Eles foram uma referência para nós. No México, por exemplo, uma das coisas que achei mais preocupante foi eles não terem, em sua cultura, alguém conhecido que viva com o HIV. A doença se torna pior no imaginário das pessoas quando não se tem uma referência concreta.

CLICK(IN)VERSOS – O que é mais importante na vida?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Fazer coisas que gostamos. E das quais nos orgulhamos. Aproveitar o tempo junto às pessoas especiais para nós.

CLICK(IN)VERSOS – O que é o amor?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Um livro inteiro seria necessário para se explicar isso. E ainda assim não seria algo definitivo.

CLICK(IN)VERSOS – Você tem religião? Acredita em Deus?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Não tenho uma religião. Mas acredito em Deus e tenho fé. E aprecio os aspectos culturais de diversas religiões.

CLICK(IN)VERSOS – Quais são os seus planos para o futuro?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Escrever, viajar e curtir as pessoas e coisas que mais gosto.

CLICK(IN)VERSOS – Que mensagem você deixaria para os jovens?

VALÉRIA PIASSA POLIZZI – Que leiam muito, exijam educação sexual contínua em suas escolas e se cuidem. Mesmo quando se apaixonar não se esqueçam da camisinha e de conversar sobre prevenção com seus parceiros. Aliás, isso serve para todos, os adultos e idosos também!

FONTE: wwwb.click21.mypage.com.br/myblog

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Luis Fernando Verissimo



Nasceu em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre (RS), e é filho do escritor Erico Veríssimo. Completou seus estudos em Washington, onde também estudou música. Trabalhou durante algum tempo no Rio de Janeiro como tradutor.
Seu primeiro livro publicado foi ‘O popular: crônicas ou coisa parecida’, de 1974. Desde então foram 60 títulos publicados, sendo Ed Mort e o Analista de Bagé seus personagens mais conhecidos.
Veríssimo também é cartunista, jornalista, romancista, contista, além é claro de cronista. Atualmente é um dos escritores brasileiros mais consagrados, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos.
Recebeu diversos prêmios, dentre os quais: em 1989, Prêmio Direitos Humanos, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); em 1995, Prêmio O Homem das Idéias do Ano, do Jornal do Brasil; em 1996, Prêmio Formador de Opinião, da Associação Brasileira de Empresas de Relações Públicas; e, em 1997, Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano, da União Brasileira de Escritores.

A Moça Tecelã

Por Marina Colasanti

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Quem é Marina Colasanti?

Marina Colasanti (Asmara (Etiópia), 1937) chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; de lá para cá, publicaria mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992). Nelas, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.

Um pouco mais de Marina Colasanti

Crônica: Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.
E aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber. Vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente se senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

quinta-feira, 6 de maio de 2010

PROJETO COPA DO MUNDO

1ª Etapa - pesquisa na sala de informática.

Nessa fase, o objetivo é pesquisar o tema Sociedade do roteiro do Projeto da Copa do Mundo. Espera-se que através das pesquisas os alunos conheçam um pouco da realidade de cada país participante da Copa do Mundo.
O foco da pesquisa é saber como as crianças e adolescentes vivem em cada país, se o governo respeita seus direitos e se possui leis que garantam uma formação saudável. Durante as pesquisas também terão acesso a informações sobre os problemas que os adolescentes enfrentam, como encaram a sexualidade, qual o índice de gravidez na adolescência e se têm envolvimento com drogas.
9ºAno C - durante os trabalhos de pesquisa


PROJETO LER É UM PRAZER






Leitura do livro Um sonho dentro de mim na turma do 8ºano C durante as aulas do 1º Bimestre





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