quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A palavra é ... Afetividade

A afetividade no contexto escolar

Inicialmente, apresentaremos as ideias defendidas por grandes pensadores que reconheceram a importância da Afetividade para a aprendizagem. Piaget sobre o assunto afirmou: “É incontestável que o afeto exerce papel essencial no funcionamento da inteligência. Sem afeto não haveria interesse, necessidade, motivação e consequentemente, não haveria inteligência.” Para ele, a aprendizagem passa a ser necessária porque é um meio pelo qual a necessidade do indivíduo pode ser satisfeita. O interesse é carregado de afeto e funciona como impulsionador da aprendizagem. A afetividade poderia ainda interferir na estrutura cognitiva provocando aceleração, adiantamentos ou retardos na formação no indivíduo. Ainda segundo Piaget, há entre afetividade e cognição uma relação de correspondência. Piaget, citado em Souza (2006), defendia que a conduta humana possui dois elementos fundamentais: a inteligência (chamada de estrutural) e a afetividade (elemento energético). Ainda que a afetividade tenha sido pouco explorada em sua obra, percebe-se a preocupação do autor em inseri-la na explicação do processo psicológico do indivíduo. “Afetividade é, assim, energia, impulso, motivação das condutas, é o que dirige o sujeito...” Em Wallon (in ALMEIDA e MAHONEY, 2007), encontramos a Teoria do Desenvolvimento e uma visão não fragmentada do indivíduo, que é entendido sob quatro diferentes pontos de vista: do motor, da afetividade, da inteligência e do ponto de vista de sua relação com o meio. A base de sua teoria é a integração afetiva-cognitiva-motora. Para o teórico, a dimensão afetiva está completamente integrada aos demais aspectos do indivíduo e, segundo sua ótica, a afetividade é fundamental para a construção do conhecimento do indivíduo. Sendo o ser humano um ser social, ele constrói o conhecimento na relação com o outro. No contexto escolar, é nas relações aluno-professor, professor-aluno, aluno-aluno e aluno-objeto que se dá o conhecimento. Nessa interação com o outro surgem os sentimentos, as emoções; enfim, os aspectos afetivos que compõem o funcionamento psíquico do ser humano. Considerar o afeto como parte integrante do processo educativo é responsável pela qualidade das relações pessoais e pela produtividade em sala de aula. Dependendo do tipo de relação estabelecida entre os protagonistas, a sala de aula será um ambiente gerador de alegria, entusiasmo, segurança, cooperação e amizade ou gerador de angústias, estresse, ansiedade, insegurança e individualismo. O cineasta francês Laurent Cantet retratou recentemente no filme Entre os Muros da Escola, adaptação do romance homônimo, o cotidiano de sala de aula de uma escola pública francesa nos dias de hoje, de uma forma crua e realista. Sob as lentes das câmeras, os protagonistas revelaram ao mundo as mazelas das relações professor-aluno e aluno-aluno, mostraram sem pudor como pode ser conflitante e tensa a convivência no espaço escolar. Os personagens do filme deixam claro, inclusive, o quanto a história de vida dos alunos convergem para a sala de aula e como suas experiências interferem em seu aprendizado, na seleção de conteúdo, na postura do aluno e do professor. Há momentos do filme que expõem o clima tenso (disfarçadamente descontraído) instaurado na sala de aula, ao ponto de Marin, o professor, perder a cabeça e insultar duas alunas. Esse incidente gera uma grande confusão: um aluno se revolta e sem querer acerta a mochila no supercílio de uma colega, culminando com a sua saída da sala sem a permissão do professor. Desejando centralizar a reflexão e discussão neste artigo acerca da realidade da educação brasileira, percebemos que situações semelhantes às retratadas pelo filme acontecem diariamente em várias escolas privadas e públicas do Brasil. A conclusão que se tira é que os conflitos entre os protagonistas da sala de aula não estão circunscritos apenas às escolas francesas e nem às brasileiras: os conflitos são constantes em salas de aula do mundo todo, como afirma o ex-professor François Bégaudeau, protagonista e roteirista do filme Entre os Muros da Escola. A reportagem da revista Veja de 17 de junho de 2009 revelou dados de uma pesquisa promovida pela International Stress Management Association (Isma), feita em São Paulo e Porto Alegre, que mostram que 52% dos professores brasileiros admitiram que tiveram atitudes agressivas com seus alunos, tendo sido irônicos ou até rudes; 46% dizem que sua maior dificuldade é conter a indisciplina e despertar a atenção dos alunos e 11% já chegaram a ser agredidos fisicamente. Diante desses dados alarmantes e que confirmam as situações de violência ocorridas nas escolas brasileiras, é possível constatar que, sobretudo, na escola pública as relações no âmbito escolar sofreram um desgaste ao longo do tempo. Mas, afinal o que está em falta nas relações pessoais estabelecidas no ambiente escolar? De acordo com Rossini (2001), a afetividade é a base da vida. Se uma pessoa não está bem afetivamente, sua ação como ser social estará comprometida. No caso do aluno, se ele não se encontra bem afetivamente, não haverá aprendizado. Por isso defendemos, nessa pesquisa, que a escola, antes de ser um espaço para produzir conhecimento, deve constituir-se num espaço afetivo, no qual crianças, adolescentes e profissionais da educação sintam-se felizes e gratos por fazer parte da vida um do outro. Vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção, que constitui o viver humano; não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional (MATURANA, 1999, p. 15). O aprendizado deveria ser algo prazeroso e não um pesar. Na escola, não se deveria privilegiar o cognitivo em detrimento do afetivo; é preciso considerar o educando como um ser social, cognitivo e afetivo, como afirma Engers (2000, p.299): “o professor trabalha com crianças com muitos problemas emocionais no seu cotidiano”. É, portanto, inadmissível excluir do processo de aprendizagem essa carga emocional, que permeia as relações pessoais.

Este é o início de uma conversa que semanalmente teremos neste espaço e quem desejar manifeste sua opinião enviando comentários para abrirmos uma discussão sobre o tema.

Nenhum comentário: