Meu cantinho de leitura e estudos

Seguidores

sábado, 28 de agosto de 2010

Mães antes da hora


Uma em cada dez estudantes engravida antes dos 15 anos. No Brasil, a taxa de fecundidade só cresce entre as adolescentes

PALOMA COTES, CARLA ARANHA E DANIELA BARBI, COM MARCO BAHÉ E RAFAEL PEREIRA

Otávio Dias de Oliveira/ÉPOCA
Otávio Dias de Oliveira/ÉPOCA  


''Eu achava que tudo o que meus pais falavam era bobagem. Agora, entendo o que eles diziam'' FAIOLE MARTINS PINTO, 16 ANOS, estudante.

A pesquisa Juventudes e Sexualidade, da Unesco, traz uma cifra espantosa:uma em cada dez estudantes engravida antes dos 15 anos. Isso significa que a adolescente brasileira tem mais probabilidade de engravidar (acontece com 14%) do que se formar numa faculdade (hoje, só 7% das mulheres possuem diploma de curso superior, segundo o IBGE). Entre as garotas com menos de 19 anos, a proporção de grávidas cresce desde a década de 70, ao contrário do que ocorre em todas as outras faixas etárias. Só no Estado de São Paulo, nos últimos cinco anos, nasceram cerca de 650 mil crianças da barriga dessas meninas-mães, mais que a população de uma cidade como São José dos Campos. As adolescentes são responsáveis por quase 20% dos bebês paulistas.
Em maior ou menor grau, todas essas jovens deixam sonhos de lado para assumir uma responsabilidade grande demais para sua idade. Há seis meses a paulistana Faiole Martins Pinto, de 16 anos, trocou as baladas pelas fraldas. ''Antes, eu achava bobagem tudo o que meus pais falavam. Agora, entendo'', afirma. Faiole não abandonou a escola nem precisou trabalhar, problemas que acometem a maioria das mães adolescentes. Mas abriu mão das amigas e da liberdade de viver com o namorado, de 19 anos, que ficou desempregado. Sem dinheiro, Faiole voltou a morar com os pais.

Em dez anos, a parcela de grávidas da classe média cresceu 34%
O fenômeno se espalha por toda a pirâmide social. Famílias que ganham até um salário mínimo per capita concentram 65% das adolescentes grávidas - quase a metade delas no Norte e Nordeste, as regiões mais pobres do país. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituto de saúde pública do Rio de Janeiro, mostram que 70% dessas mães ficarão desempregadas depois. ''A mãe adolescente pobre vai perpetuar a pobreza. É uma armadilha contra o desenvolvimento'', diz o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas. Na classe média, a gravidez inesperada atrapalha os estudos da jovem, suas perspectivas de carreira e de relacionamentos futuros (a relação que originou a gravidez quase nunca dura). Quando a gravidez prossegue, o bebê também pesa nos ombros dos avós - no mínimo, como uma bomba sobre as finanças familiares. Calcula-se que criar um filho de classe média, estudando em escola particular, custe R$ 420 mil, do nascimento aos 21 anos. E a avó acaba sendo requisitada para cuidar da criança, justamente na hora em que o esforço para criar os filhos parecia próximo do fim.

 
Mirian Fichtner/ÉPOCA
''Eu dizia que nunca ia fazer uma burrice dessas''
NAYARA FERREIRA, 17 ANOS (no centro), estudante e irmã de Luana, que foi mãe de Maria Eduarda (à dir.) aos 14 e agora espera o segundo filho
O que mais espanta nas estatísticas, porém, é como tem crescido a proporção de adolescentes grávidas em famílias abastadas, com acesso a informação, orientação médica e anticoncepcionais. O número de nascimentos só não é maior por causa dos abortos, feitos em clínicas clandestinas. Mesmo assim, em dez anos, a participação das garotas de classe média entre as grávidas aumentou 34% e já se reflete na rede de saúde particular. Nesse período, os partos de adolescentes no Hospital São Luiz, uma das maiores maternidades de São Paulo, quadruplicaram.
Esses jovens pais e mães estudam em colégios privados e crescem num ambiente em que se ouve falar de sexo seguro abertamente - quando não na sala de jantar, ao menos na TV e nas revistas. ''O pai compra um ótimo livro sobre sexualidade para o filho, com a maior boa vontade, e acha que já fez tudo'', diz a psicóloga Patrícia de Souza. É uma questão que afronta as soluções óbvias. Ao contrário de gerações anteriores, os jovens de hoje são bombardeados pelas campanhas publicitárias e pela educação sexual no colégio. Mas é surpreendente como velhos tabus e fantasias ainda os confundem. ''Em pleno século XXI, muitas garotas crêem que não há perigo de engravidar na primeira transa'', diz a psicanalista carioca Marilyn de Oliveira, que assessora escolas particulares. Infelizmente, nessa idade, a chance de engravidar com uma única relação sexual, na semana que antecede a ovulação, é de 20% - uma em cinco, risco maior que o de levar um tiro num apertar de gatilho de roleta-russa (que é de 17%). Os garotos, por sua vez, se recusam a usar camisinha na primeira relação sexual (e nas outras também). ''O menino tem medo de broxar com o preservativo. E as meninas têm medo de insistir para que ele use a camisinha'', diz Albertina Duarte, coordenadora do Programa de Atendimento Integral à Saúde do Adolescente.

#Q:Mães antes da hora - continuação:#
A mulher só está fisicamente pronta para ser mãe aos 19 anos

Se a camisinha é desprezada, a pílula, nem se fala. Mesmo quem conhece os métodos de prevenção os utiliza de forma precária. ''Eu não tomava pílula porque tinha medo de engordar. Usava camisinha. Quando não tinha, partia para a pílula do dia seguinte. Mas ela não é 100% segura'', diz a estudante Paula Andreotti, de 20 anos, que engravidou aos 17. De fato, tomada até 24 horas depois da relação sexual, ela tem 95% de eficácia. Mas, se usada repetidamente, a pílula perde a eficácia. Paula estava decolando na carreira de modelo e, ao descobrir a gravidez, teve de rasgar um contrato para desfilar em Milão. Passou nove meses rejeitando o bebê. ''Na faculdade, usava roupas largas para esconder a barriga e não conversava com ninguém'', conta. ''Tinha medo de ficar gorda e com o peito caído depois do parto'', lembra. O temor faz sentido. ''Uma mulher está pronta para parir a partir dos 19 anos, idade em que o corpo e os ovários estão maduros'', diz o ginecologista Alberto D'Auria, do São Luiz. Antes disso, quanto mais nova for, mais riscos corre - inclusive os estéticos. Nessa idade, os picos de hormônios aumentam a propensão a estrias.

Otávio Dias de Oliveira/ÉPOCA
''Eu não usava anticoncepcional sempre.
Só camisinha ou a pílula do dia seguinte''

PAULA ANDREOTTI, 20 ANOS,
estudante, mãe aos 17

Como as mães mais velhas, elas também precisam adaptar seu estilo de vida. Adeus baladas, festas, namoros e vida social agitada. ''Dá uma sensação de que o tempo está passando e você ficando para trás'', explica a engenheira industrial Ana Carolina Senaga, mãe aos 17 anos. ''Perdi todos os anos de minha adolescência. Não dava para dormir fora nem viajar sozinha. Tudo o que você faz, depois que o filho nasce, tem de ser a dois: você e ele'', conta. Hoje, aos 27, ela quer aproveitar a vida. Não é fácil. Segundo essas mães, arrumar um namorado fica complicado. Os homens não costumam ser compreensivos com mulheres nessa situação. E os níveis de exigência delas crescem. ''Não é todo o mundo que entende'', conta Ana Carolina, que está engatando um novo relacionamento. ''Antes de se apaixonar por mim, já aviso que tem de gostar do Kainan. E, se ele não gostar do sujeito, eu também não namoro'', reforça Paula.

Boa parte das adolescentes engravida num momento em que está questionando seu lugar na sociedade. ''Nesse período da vida, há o desejo inconsciente e muitas vezes ambivalente de se afirmar como mulher sexualmente ativa e como mãe'', diz a pediatra Evelyn Eisenstein. ''Mesmo sem se dar conta disso, as garotas tentam compensar insatisfações e tristezas buscando um objeto de amor, que pode ser um filho, para preencher um sentimento de vazio interior'', explica. Entre muitas jovens pobres, a gravidez também é considerada sinal de status, lembra o ginecologista Amaury Mendes. ''A adolescente deixa de ser vista como filha pela comunidade, para virar mãe, e é mais respeitada por isso'', diz. A recifense Márcia da Silva, caçula da família, desde pequena cuidou dos sobrinhos. Engravidar virou seu projeto de vida. Era sinônimo de maturidade e libertação. ''Eu queria ter meu próprio filho e ser respeitada'', conta. Aos 13 anos, Márcia envolveu-se com um rapaz oito anos mais velho. A gravidez veio em seguida. Um ano depois, alçada à condição de mulher adulta pela comunidade, Márcia largou o namorado e ganhou liberdade para usufruir sua sexualidade, embora ainda seja sustentada pelos pais. ''Antes, não me deixavam nem sair para as festas. Agora que não devo mais nada a ninguém, quero conhecer outros garotos'', diz, contrariando a lógica que permeia a vida de mães adolescentes do Sudeste. É um caso típico de ''mito da Cinderela''. ''Como nos contos de fadas, elas acreditam estar assegurando seu futuro através de um príncipe encantado, um provedor'', diz a especialista em terapia familiar pela Universidade Federal de Pernambuco e pediatra Maria das Graças Pires. Mas, nesses contos de fadas, dificilmente há final feliz. Em geral, os rapazes caem fora quando a gravidez começa a transformar o corpo das adolescentes. Cerca de 72% delas acabam ficando mesmo na casa dos pais - e, dali em diante, com dificuldades para arranjar namorado permanente.
Mãe há cinco meses, Silvia, de apenas 11 anos, sonhava com um lar e uma família quando começou a transar com o namorado, quatro anos mais velho. Ao saber da notícia, o rapaz mudou de bairro. Silvia deixou a escola e trabalha como garçonete. ''Pensei em tirar o bebê, mas minha mãe disse que agora eu tinha de assumir'', conta. Mais sorte teve a carioca Luiza Barbosa, que engravidou aos 14 anos, do primeiro namorado. O relacionamento durou menos de um mês após o parto. Mas a família de Luiza não teve dificuldade para acolher mais um no confortável apartamento. Sempre com a mãe por perto, a menina só interrompeu a escola por 40 dias e amamentou até os seis meses. Atualmente, aos 20 anos, cursa Medicina. Também vai à praia, a boates e sai com os amigos. ''Devo isso a minha mãe'', diz Luiza, que sabe bem que é uma exceção.

Alexandre Belem/ÉPOCA
''Antes, não me deixavam fazer nada. Não podia nem sair para as festas. Agora que sou mãe, não devo mais nada a ninguém''
MÁRCIA DA SILVA, 14 ANOS, mãe aos 13 anos, sustentada pelo pai

Costuma-se sugerir que os filhos de adolescentes terminam rejeitados e problemáticos. Isso não é necessariamente verdade. Muitas mães precoces se adaptam bem ao novo papel. ''No momento do parto, entendi o significado da palavra mãe. E que meu filho não tinha culpa de nada'', diz Paula sobre Kainan, hoje com 2 anos. ''Ele é tudo para mim'', orgulha-se. Mas pesquisas feitas em São Paulo mostram que outros problemas acontecem. Mães prematuras tendem a ter outro bebê até três anos depois. No Estado, em 1998, foram feitos 45 mil partos de adolescentes que estavam na terceira gravidez. ''Após o primeiro filho, as jovens estão sem perspectiva de trabalho. Se arrumam um namorado, ficam inseguras e não têm coragem de pedir camisinha'', explica Albertina. Outro problema é que as histórias tendem a se repetir dentro das famílias. ''Tenho pacientes bisavós aos 55 anos'', conta o ginecologista Valdir Tadini, da Comissão Estadual da Saúde do Adolescente de São Paulo. Isso ocorre porque os filhos da mãe adolescente acabam seguindo seu exemplo. ''O filho cresce imaginando que a própria vida também não vai ser transformada se for pai ou mãe mais cedo'', diz Tadini.

Cerca de 72% das grávidas acabam morando com os pais

Dentro da casa dos Ferreiras, formou-se uma escadinha. Luana Ferreira, que foi mãe aos 14 anos, viu a história se repetir com a irmã Nayara, que está grávida. Hoje aos 17, Luana diz que ter um filho cedo não mudou sua rotina: ''Sempre tive espírito maternal''. Hoje, aos 19, concilia a segunda gravidez com a faculdade. Já a irmã se ressente. ''Foi um choque para mim'', diz, culpando o ginecologista. ''Quando comecei a namorar, o médico recomendou que eu esperasse a próxima menstruação antes de tomar anticoncepcionais, mas não me orientou sobre o que fazer nesse meio tempo.'' O histórico similar não as fez seguir o mesmo caminho. Luana vive com o pai de seus filhos desde os 12 anos e é uma exceção dentro do quadro nacional. Nayara não sabe se terá futuro ao lado do namorado. ''Estamos juntos há apenas três meses. Não sei se temos a ver'', diz.

Eduardo Monteiro/ÉPOCA

''Depois do filho, amadureci e passei a me cuidar mais. Mas não sou mais livre para fazer o que quero. É como se tivesse sempre uma corrente no meu pé''

LUIZA BARBOSA, 20 ANOS, estudante, mãe aos 14

Gravidez na adolescência é uma questão séria, que precisa ser encarada pelos governos. Pioneiro na implementação de políticas públicas para o jovem, o Estado de São Paulo começa a colher os frutos dessas iniciativas após 16 anos de batalha. Uma delas é a Casa do Adolescente, onde são dadas orientações sobre sexualidade e tanto meninas quanto meninos são atendidos por dentistas, nutricionistas, psicólogos. ''Não recebemos só jovens carentes. A classe média também nos procura'', diz Albertina, uma das coordenadoras do programa. Ali, adolescentes grávidas aprendem a cuidar do bebê, têm uma creche para crianças de até 2 anos - intervalo de tempo necessário para que as jovens recuperem a auto-estima, estudem, arranjem um emprego. O trabalho é preventivo, com oficinas de discussão com parentes dos jovens pais.
Na contramão do país, o Estado de São Paulo conseguiu reduzir a gravidez prematura. Em seis anos, o porcentual de adolescentes que engravidam novamente caiu de 40% para 15%. No mesmo período, o número de partos entre mães de 10 a 19 anos encolheu 21%. Nos últimos três meses, a Casa do Adolescente distribuiu 200 mil preservativos. Parece pouco, mas já é um bom começo

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI43004-15228,00-MAES+ANTES+DA+HORA.html
Saúde



21/07/2009 - 11:35COMPARTILHAR IMPRIMIR Estados Unidos


DSTs e gravidez na adolescência tiveram alta nos anos Bush


A taxa de gravidez na adolescência e o número de casos de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) entre jovens aumentaram nos anos do governo Bush, revelou uma pesquisa do Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Segundo o relatório da maior agência estatal de saúde, as estatísticas pioraram nos últimos anos - embora estivessem apresentando melhora antes do mandato republicano.
De acordo com reportagem do jornal britânico The Guardian, a pesquisa descobriu que a quantidade de mães adolescentes vinha caindo desde 1991, mas, a partir de 2005, registrou um drástico crescimento em mais da metade dos estados americanos. As estatísticas também indicam que o número de meninas adolescentes com sífilis teve uma alta de quase 50%, enquanto que o número de meninos com Aids praticamente dobrou.
O CDC ressaltou que as mais altas taxas de DSTs e gravidez na adolescência foram observadas nos estados do sul do país, onde a questão da abstinência sexual e a religião têm maior ênfase. "É desanimador que, após anos de melhoras no que diz respeito à gravidez na adolescência e a doenças sexualmente trasmissíveis, nós agora vemos que o progresso está estagnado ou que muitas dessas tendências estão indo na direção errada", disse Janet Collins, diretora do CDC.
O relatório não apontou nenhuma causa para tal resultado, mas grupos a favor de uma melhor educação sexual entre os jovens culparam a o fracasso das políticas conservadoras implementadas pelo ex-presidente George W. Bush.

Fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/saude/dsts-gravidez-adolescencia-tiveram-alta-anos-bush

Conteúdo sensual da TV desperta gravidez na adolescência--estudo

03 de novembro de 2008


A exposição a algumas formas de entretenimento exerce influência corruptora sobre crianças e adolescentes, aumentando a incidência de gravidez entre jovens que assistem a programas contendo sexo e levando crianças que jogam videogames violentos a adotar comportamentos agressivos, disseram pesquisadores dos Estados Unidos nesta segunda-feira.
Pesquisadores da organização RAND disseram que seu estudo de três anos é o primeiro a vincular a programação sensual de canais de TV a comportamentos sexuais de risco entre adolescentes.
"Nossas descobertas sugerem que a televisão pode exercer um papel significativo nos altos índices de gravidez adolescente nos EUA", disse a cientista comportamental Anita Chandra, que chefiou a pesquisa da RAND, uma organização de pesquisas sem fins lucrativos.
Os pesquisadores recrutaram adolescentes de 12 a 17 anos e os pesquisaram três vezes entre 2001 e 2004, perguntando sobre seus hábitos como telespectadores, seu comportamento sexual e gravidez.
Os resultados abrangem 718 adolescentes, entre os quais houve 91 gravidezes. Os 10 por cento dos adolescentes que assistiram aos programas com mais sexo apresentaram o dobro do risco de engravidar ou causar uma gravidez, comparados aos 10 por cento que assistiram a menos programas desse tipo, segundo o estudo publicado no periódico Pediatrics.
O estudo focou 23 programas de TV aberta e a cabo populares entre adolescentes, incluindo sitcoms, dramas, programas de realidade e desenhos animados. As comédias tinham o maior teor sexual, e os programas de realidade, o menor.
"O conteúdo de TV que vemos raramente destaca os aspectos negativos do sexo, seus riscos e responsabilidades", disse Chandra. "Portanto, se os adolescentes estão recebendo informações sobre sexo, raramente recebem informações sobre gravidez ou doenças sexualmente transmissíveis."
Os índices de gravidez na adolescência caíram nos EUA desde 1991, mas ainda são altos comparados a outros países industrializados.
As mães adolescentes têm probabilidades maiores de abandonar a escola, precisar de assistência pública e viver na pobreza.
De acordo com Chandra, a televisão é apenas uma das influências da mídia sobre o comportamento dos adolescentes. "Devemos analisar também o papel das revistas, da Internet e da música na saúde reprodutiva dos jovens."
Um segundo estudo publicado no periódico acrescentou novas provas às evidências já existentes de que os videogames violentos favorecem o comportamento físico agressivo de seus jogadores adolescentes.
Pesquisadores dos EUA e Japão avaliaram mais de 1.200 japoneses e 364 norte-americanos, de 9 a 18 anos, e constataram "um risco significativo de comportamento físico agressivo posterior ... em culturas muito diferentes."
Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,conteudo-sensual-da-tv-desperta-gravidez-na-adolescencia-estudo,271580,0.htm

LEIA A MATÉRIA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

Maternidade inesperada


O apoio da avó, em casos de gravidez precoce, pode ser muito benéfico, mas depende de como é conduzido
 
Quando a gravidez acontece na adolescência, não adianta culpar nem condenar os responsáveis: a falta de maturidade requer o apoio dos familiares, especialmente da mãe. O suporte e as orientações da avó são fundamentais para cumprir os desafios da maternidade precoce. Esse drama, vivido por milhares de famílias, é retratado, inclusive, na novela A Favorita, da TV Globo, pelas personagens Mariana (Clarice Falcão), a filha, e Catarina (Lilia Cabral), a mãe.
O consultor em educação sexual e autor do livro Adolescente: um Bate-Papo sobre Sexo (Editora Moderna), Marcos Ribeiro, reforça a necessidade de "educar para as novas responsabilidades". "Esse aprendizado é importante para que o jovem casal entenda que não está brincando de casinha." Mas isso não quer dizer que os pais devam assumir as responsabilidades dos adolescentes.
"A mãe pode ensinar à sua filha como cuidar de si e do bebê, como um exercício. E, em seguida, pedir para a garota fazer a tarefa e deixar claro que a partir de cada lição ela será responsável pela execução", comenta Marcos. "A mãe deve lembrar que está ensinando, e que aquele compromisso com o bebê é da filha e do pai da criança."
Nada impede, porém, que a avó conviva bastante com a criança. "Esse convívio pode trazer grandes benefícios tanto para a criança como para a avó. Mas tal situação deve ser bem administrada, com os limites necessários e respeitando o papel de cada um, o que pode ser resolvido por meio de conversa", aconselha. "E mesmo sendo adolescentes, os avós devem respeitar os pais da criança. Não devem desautorizá-los diante do netinho."
O psicólogo especializado em relacionamentos, Alexandre Bei, reforça que é importante não condenar nem menosprezar a jovem. "Ela ainda não é adulta e precisa muito do apoio e do afeto dos pais", pondera. "O melhor é a avó participar do processo, sem julgar."
Já a psicóloga Magdalena Ramos, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tem um ponto de vista diferente. Com o pediatra Leonardo Posternak, escreveu o livro E Agora, o que Fazer? (Ágora), sobre a arte de criar filhos. "Uma adolescente ainda não tem maturidade suficiente para criar um filho, não se amadurece por decreto", exclama. "E se fosse fazer isso, teria que parar de estudar e trabalhar. Acho que a avó deve ajudar o máximo possível para que a filha possa continuar estudando. Após alguns anos, quando aprender a caminhar com as próprias pernas, talvez possa assumir a situação plenamente."

 
Avós precoces
A jovem avó Silvia Nunes Telles, de 36 anos, foi pega de surpresa quando sua filha Tamires, na época com 16 anos, engravidou. "No começo, fiquei em choque. Minha preocupação era que ela continuasse os estudos", lembra. O pai de Tamires ficou tão bravo que não quis mais falar com a filha, só há pouco tempo retomaram o relacionamento.
Silvia nem bem teve tempo de se estruturar e teve novas surpresas: Tamires ficou doente, com caxumba. "Dei todo o apoio", conta. "A maior preocupação passou a ser a doença, mas felizmente ela se recuperou bem." Cuidou da filha, forneceu todas as orientações, a acompanhou no pré-natal e comprou roupinhas para a pequena Beatriz, que hoje tem 1 ano e 6 meses.
O pai da criança, de 19 anos, sugeriu que Tamires fosse morar com ele, mas Silvia a desaconselhou por causa do temperamento instável do rapaz. E insistiu para que Tamires continuasse estudando: ela só parou de ir à escola por um mês. "Eu e as amigas dela ajudamos nos trabalhos escolares e ela passou em tudo. Agora está no terceiro ano do ensino médio", conta.
Hoje, aos 18 anos, Tamires continua morando com a mãe, o padrasto e os irmãos. "Nosso relacionamento é muito bom." Há pouco mais de um mês, voltou a trabalhar com telemarketing durante o dia, e continua estudando à noite. Pensa em fazer faculdade de administração. "No começo, acho que minha mãe pensou sobre o que os outros iriam dizer, depois tirou de letra", conta.
A história da contadora Lucia Morita, de 45 anos, envolveu dissidências familiares. Sua filha única, Andressa, ficou grávida aos 18 anos, na época em que morava com a mãe, a avó e as tias maternas. À primeira suspeita de gravidez, Andressa se abriu com a mãe. "Fui com ela fazer o teste", lembra Lucia. "Ela chorou muito, ficou muito preocupada com o futuro. Falei que o importante era cuidar da própria saúde e do bebê, o resto tinha menos importância."
Lucia encarou com tranqüilidade a notícia. Apesar de a gravidez não ter sido planejada, apoiava o namoro da filha com o pai da criança. Estavam juntos há poucos meses, mas se conheciam há anos. Desde o princípio, ele assumiu suas responsabilidades. "É engraçado que tinha acabado de fazer um plano de saúde. Ofereceram uma opção que incluía o serviço de maternidade, e eu falei que era muito jovem para ser avó. E foi o que aconteceu", diverte-se.
Também ensinou tudo para a filha sobre como cuidar do bebê. Curiosamente, o problema maior de Lucia e Andressa foi com o resto da família. Suas tias não receberam bem a notícia e fizeram uma série de cobranças ao pai da criança. A solução encontrada foi a mudança de Andressa para a casa da família do namorado durante a gravidez. "Sentia muita falta dela e ia visitá-la todos os dias após o trabalho", lembra Lucia.
Hoje seu netinho, Marcelo, tem 2 anos e oito meses. Pouco antes de ele nascer, os pais encontraram uma casa própria. E a convidaram para morar com eles. Ela aceitou. Hoje, trabalha durante o dia, mas curte o neto à noite. Marcelo fica com os avós paternos enquanto os pais trabalham.
Andressa tem hoje 22 anos. Concluiu o ensino médio e voltou a trabalhar quando o filho completou 1 ano e meio. "Foi muito importante ter contado com o apoio da minha mãe."

Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,maternidade-inesperada,285861,0.htm

terça-feira, 24 de agosto de 2010

É legal a proibição de celulares nas escolas do Brasil?

Elaborado em 04.2009.
José Antonio Milagre
Pesquisador em cybercultura. Advogado especialista em Direito Digital. MBA em Gestão de Tecnologia da Informação. Professor de Pós-Graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie, SENAC e UNIGRAN. Co-autor do livro "Internet: O Encontro de 2 Mundos" (Brasport, 2008). Colaborador do livro "Legislação Criminal Especial", (org. Luiz Flávio Gomes, RT, 2009).
Vamos a um caso "fictício". Numa escola particular no Estado de São Paulo, duas alunas começam uma briga em sala, a "roda se forma", as meninas caem no chão, em alguns minutos o Professor que estava fora da sala intervém, e as alunas, machucadas, são levados à enfermaria, sendo uma claramente mais ferida, com cortes no rosto e o nariz sangrando.
Esta cena nada teria de "novidade" aos leitores, não fosse um aluno que filmara todo o ocorrido com seu ultra-celular, em altíssima resolução. Publicar na Internet ? Ele vai além, e exige sexo com a adolescente para que o vídeo não seja divulgado. A chantagem é aceita, e mesmo assim o vídeo é divulgado entre os alunos do colégio por meio de comunicação Bluetooth, até que um dia aparece na web. A garota, em estágio depressivo e não agüentando mais toda a pressão, abre o jogo, e conta tudo aos pais, que processam não só os pais do adolescente, mas também o Colégio, por permitir celulares em sala de aula.
Tal caso "fictício", mais que nos chocar pela frieza do adolescente, nos faz pensar sobre um ponto fundamental que é discutido hoje no planeta: o uso de celulares em escolas deve ser proibido?
É mais um debate cujos dois lados têm seus fundamentos consideráveis e convincentes. Por um lado, o uso de celulares com televisores embutidos, câmeras, mp3, pacote de dados vem "acabando" com as aulas, potencializando a distração dos adolescentes; "celular prejudica o aprendizado e a socialização" e por vezes é utilizado com "má-fé"; é comum encontrarmos na Internet professores "tirando caca do nariz", "o close no bumbum da pobre docente que escrevia no quadro" ou "professores fazendo dancinhas estranhas", que certamente não fariam se soubessem que um aluno esperto lhe filmara pari passu. Não se pode esquecer das famosas "colas nas provas", que ficou fácil de serem feitas com estes dispositivos. Games em sala de aula então...
Por outro lado, há a corrente de quem defende que proibir celulares com alunos em sala de aula é "inconstitucional", viola o direito de "ir e vir com seus bens", a dignidade da pessoa humana e o direito pétreo à segurança, considerando que o equipamento pode ser utilizado em muitos casos para afastar riscos ou danos às pessoas ou terceiros. E quando digo segurança, podemos pensar "naquele professor que manda o aluno tomar naquele lugar" em ato completamente descontrolado, ou "aquele professor que impõe um castigo que mais se assemelha à tortura", dentre outros. Com todo respeito à nobre classe dos professores, da qual faço parte, mas sabemos que exceções existem.
Como se verifica, a disputa é boa e as teses bem amparadas! Mas, vejamos como o mundo pensa.
Nos Estados Unidos, a Suprema Corte do Estado de New York proibiu que alunos levassem seus celulares a escolas públicas. A medida foi aprovada pelo Departamento de Instrução do Estado. Os pais protestaram junto à corte, alegando que filhos com celulares é igual a tranqüilidade para pais.
É possível encontrar na Web até opiniões mais ortodoxas, tachando a proibição de celulares nas Escolas de uma "Prática Fascista" [1].
O Governo do Peru também já intenta medida restritiva semelhante [2]. Na Europa, a França discute a proibição de celulares para menores de 12 (doze) anos [3]. A Itália, em 2007, proibiu que crianças usassem celulares em classes após a publicação em novembro de 2006 de um vídeo onde um aluno deficiente era espancado em sala por colegas [4].
Preste atenção: crianças!
Já no Brasil, São Paulo foi o primeiro estado a proibir os equipamentos, com a rápida aprovação da Lei Estadual 12.730/2007, prescrevendo que "ficam os alunos proibidos de utilizar telefone celular nos estabelecimentos de ensino do Estado, durante o horário das aulas".
A Lei foi regulamentada pelo Decreto número 52.625 de janeiro de 2008, que prevê que:
Artigo 2º - Caberá à direção da unidade escolar:
I - adotar medidas que visem à conscientização dos alunos sobre a interferência do telefone celular nas práticas educativas, prejudicando seu aprendizado e sua socialização;
II - disciplinar o uso do telefone celular fora do horário das aulas;
III - garantir que os alunos tenham conhecimento da proibição.
Em seguida, a Prefeitura do Rio de Janeiro, em 2008, promulgou a Lei 4.734, válida apenas para a cidade [5]. No Ceará, a Lei 14.146/2008 vetou o uso de celulares e tocadores MP3 nas salas de aula das Escolas Estaduais. Rondônia também já apresenta legislação promulgada sobre o assunto [6]. Cidades do Interior de São Paulo já adotam a iniciativa, como Piracicaba, que discute o projeto 226/2007 [7]. Outros projetos de nível estadual e municipal sobre o assunto são discutidos em outros Estados.
Alguns pontos merecem destaque na Lei Paulista: a lei só se preocupa com escolas estaduais, o que de certa forma trata iguais de forma desigual. Aliás, se formos pensar bem, é amplamente mais provável que uma escola particular tenha maiores índices de alunos com celulares. Outro ponto é que a lei proíbe alunos – repita-se, alunos – de usarem celulares, sendo que o mesmo não vale para professores. Ora, educação não é um "aprendizado mútuo", ou uma "sinergia de valores" ?
A Lei já é inclusive atacada Judicialmente por Associações de Pais e Alunos Paulistas, como a NAPA [8].
Não bastasse a estranha iniciativa Paulista, no âmbito federal, temos o adiantado Projeto de Lei 2246/2007 [9], que tramita na Câmara dos Deputados, de autoria do Deputado Pompeu de Mattos (PDT-RS). Em breve, se aprovado, todo o país deverá cumprir a lei.
Ao que se conclui de uma interpretação literária, a Lei Federal vedaria o uso de celulares em escolas publicas não só por alunos, mas a princípio por todos, o que é por demais truanesco. Segundo sua justificativa, o objetivo é assegurar "a essência do ambiente escolar". Lindo, não? Outro ponto engraçado é "muitos deixam o celular no modo silencioso e às vezes não resistem: quando recebem uma ligação, atendem sussurrando em voz baixa."
A lei rebate a questão do celular como segurança para alunos se comunicarem com seus pais, alegando que todas as escolas possuem telefones fixos à disposição do aluno. Nossa, quais escolas são estas ?
Cita também o caso da Alemanha, onde no Estado da Baviera o celular foi proibido, justificando o caso de alunos que levavam pornografia aos bancos escolares. A lei não limita a idade da proibição, conquanto somos obrigados a deduzir que o aluno até 17 (dezessete) anos estará proibido, por ser menor, pois seria incrível deduzir que a Lei deve ser aplicada à ambientes acadêmicos, cursinhos, mestrados etc.
Igualmente, não regulamenta o processo de verificação ou punição, e não se pode deixar de cogitar que cada escola poderá estabelecer um "processo" de retenção, punição e devolução dos equipamentos, sempre observando as regras traçadas pelo Poder executivo.
Agora, já pararam para pensar se aquele diretor ou professor revolve "fuçar" nos equipamentos retidos ? Caso nítido de violação de privacidade e em alguns casos violação telemática não autorizada! Não precisa nem "fuçar", mas ter acesso no display a conteúdos privados do aluno. Como custodiar corretamente estes equipamentos? Lamentavelmente, nosso legislador, às pressas, nem sempre pensa nos "dois lados da moeda".
Minha opinião sobre o assunto?
Restringir totalmente os celulares aos adolescentes em quase um terço do tempo de suas vidas é descaracterizar-lhes, agredindo fortemente as premissas que embasam sua geração, a geração do hypertexto, wiki, a geração digital. É hora de pensar as novas tecnologias na escola não como inimigos, mas como ferramentas pedagógicas [10]. Experimente mandar um "Silêncio", via SMS, para seu aluno, mostre que você está lá e sabe o que lá se passa.
Evidentemente, entendo ser mais que absurdo o discente que "atende celular em sala de aula", o "aluno que assiste tv em sala de aula", ou que "fica ouvindo mp3 enquanto o professor está laborando arduamente explicando os conteúdos". Porém, não vejo proporcionalidade na restrição do uso por completo dos equipamentos. Ora, talvez o legislador tenha esquecido que os celulares têm um botão "desliga"! Ou que existe algo chamado "vibracall"! Pronto, não está "em uso"! Diga-se, se o conteúdo da aula lhe envolve emocionalmente, não há toque, ringtone ou vibração que faça o aluno desviar sua atenção.
Trata-se de medida "sem sal" e que não vai ser a grande responsável pelo melhor desempenho dos alunos em sala. E quando aquele professor quiser demonstrar que sabe das leis, e dirigindo-se imponentemente ao aluno pedindo que lhe entregue o celular, vai ouvir em tons garrafais: "Eu estou somente portando um celular, e não usando, logo, não estou infringindo lei alguma!" ou "Prove que meu celular está ligado!".
Alguém duvida ?
Em síntese, entendo que ambas as correntes têm seus prós e contras. Penso, sim, que determinadas condutas de alunos são altamente reprováveis, mas – convenhamos – o Estado tem assuntos mais importantes para fazer do que ficar expedindo leis com 3 (três) artigos. Tal tema bem que poderia ficar à cargo do Regimento Interno das Escolas, como assevera a Lei de Diretrizes e Bases [11]. Assim, as Escolas deverão revisar seus regimentos a respeito das novas tecnologias, com bom senso, e não impondo processos de retenção ou vexatórios.
Sou contra a aprovação às pressas de leis que envolvem tecnologia, sem aprofundados estudos sobre os temas, com oitiva não só de psicólogos, mas dos pais de alunos e demais envolvidos. Tomar por base países de Primeiro Mundo como Alemanha não me parece uma medida mais sensata, eis que é pouco provável que um aluno de lá tenha que fazer um contato às pressas com seus pais, pois a escola está no meio de um tiroteio entre traficantes...
Enfim, preparemo-nos para as "revistas pessoais" antes de ingressarmos nas escolas. Hoje, são os celulares e MP3 que serão proibidos, amanhã serão os DS Wireless [12], e a cada novo dispositivo móvel, mais uma Lei restritiva.
Hoje, começam-se as restrições nas escolas, depois nos cinemas, amanhã em lugares públicos [13], até um dia em que usar celular ou dispositivo móvel, será permitido apenas entre quatro paredes, em demonstração nítida da "era da intolerância", onde "o rigntone do vizinho me causa ira e náuseas!". Pronto, regrediremos à "telefonia fixa-celular".
É preciso que se aprenda, não se pode lutar contra as características de uma geração, não se pode lutar contra tecnologia! A conversação está apenas começando.
Fonte:http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=12716
CULTURA DE PAZ 
VIRANDO A MESA DA VIOLÊNCIA
 
14/02/2003

por Diogo Dreyer A incidência de crimes violentos no país, principalmente envolvendo jovens em idade escolar, desperta o sentimento de que alguma coisa deve ser feita. Mas muita gente acredita que não se chega a lugar algum apenas aumentando o policiamento e com repressão. É preciso transformar a paz em uma cultura, mudando a maneira de as pessoas se relacionarem e colocando a paz como uma questão de postura e de respeito.
A série de quatro reportagens do Portal — dividida em questões fundamentais para essa discussão: escola, drogas, família e mídia — mostra como se pode criar uma cultura de paz e de que maneira algumas formas de violência atingem o Brasil, principalmente a escola.

Era tarde na Escola Estadual Coronel Benedito Ortiz quando vários alunos que estavam em recuperação aproveitavam o horário de recreio no pátio. A escola fica em Taiúva, uma cidadezinha no interior de São Paulo com aproximadamente 5 mil habitantes e que, de tão pequena, é classificada como uma daquelas cidades que nem estão no mapa.

Edmar Aparecido Freitas, violência simbólica teria levado à tragédia.
Mas um ex-aluno da escola, Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, chamou a atenção para a cidade. Naquela tarde de 27 de janeiro, ele pulou o muro, cumprimentou a zeladora e se dirigiu ao pátio. Sem dizer uma palavra, Edmar sacou de um revólver e abriu fogo contra seus ex-colegas. Recarregou a arma e recomeçou a atirar. Com os disparos, feriu sete pessoas. Em seguida, foi até a residência do caseiro e parou em frente à esposa deste, a qual, implorando para ser poupada, viu o jovem disparar um último tiro contra a própria cabeça. Horrorizados, os habitantes da cidade, bem como a opinião pública, perguntam-se: o que levou o jovem a agir dessa forma? Segundo os investigadores do crime, Edmar era “gordinho” durante a infância e boa parte da adolescência e, por isso, tornou-se alvo de chacotas por parte dos colegas. Mesmo quando conseguiu emagrecer, os outros alunos não o deixaram em paz. Isso teria sido o bastante para deflagrar a tragédia.
O delegado encarregado afirmou que o crime já vinha sendo planejado há pelo menos dois meses. Além disso, um amigo de Edmar provavelmente sabia o que estava por vir, pois foi comprar as balas juntamente com o jovem.
Em uma entrevista para o Portal, uma semana antes da tragédia, a pesquisadora Miriam Abramovay lembrava o massacre na Escola Secundária Columbine. Em 20 de abril de 1999, a pacata cidade de Littleton, no Colorado, foi palco da maior chacina em um estabelecimento escolar ocorrida até hoje nos EUA. Mascarados e fortemente armados, Dylan Klebold e Eric Harris, ambos de 18 anos, invadiram aquela escola e executaram 13 pessoas. Horas depois, cercados pela Swat, suicidaram-se.
Miriam lembrava que 17 alunos sabiam que o crime iria ocorrer, mas não foram capazes de contar a ninguém e evitar que o massacre acontecesse. “Isso provou que não havia confiança entre essa juventude e qualquer elemento da escola ou até mesmo os pais para que eles contassem o que estava acontecendo. A escola não é aberta para discussões e, muitas vezes, os adultos não escutam ou até fecham os olhos para o que se passa com os alunos”, diz.

Dylan Klebold e Eric Harris. Culto ao ódio levou ao maior massacre em uma escola nos EUA.
Não só nesse detalhe o relato da pesquisadora “antevia” o que se passou em Taiúva. Para ela, a violência simbólica (agressões verbais ou discriminação racial, por exemplo, como o problema enfrentado pelo “gordinho” Edmar) está presente nas escolas brasileiras, mas “finge-se que não está lá”. “A violência na escola sempre existiu. O que não estava lá era, por exemplo, a entrada de armas. Como vivemos numa sociedade mais violenta, isso acaba por exacerbar essas pequenas formas de incivilidade que, por menores que sejam, causam muito sofrimento”. Deixando de lado casos tão extremos, Miriam lembrou que a violência não se restringe a um problema individual, pois um aluno que é constantemente molestado tem grandes chances de não passar de ano e nem mesmo vai querer continuar indo à escola. Coincidência ou não, os crimes em Littleton e em Taiúva ainda guardam outra semelhança: tanto na residência de Edmar quanto nas casas dos estudantes americanos foram encontradas propagandas nazistas, marca registrada da cultura de ódio.
Professora da Universidade Católica de Brasília, a socióloga Miriam Abramovay se dedica ao estudo dos jovens escolarizados do Brasil. Entre muitos trabalhos que publicou, destacam-se Gangues, Galeras, Chegados e Rappers (Editora Garamond, 1999) e Escolas de Paz (Edições Unesco, 2001). Recentemente, ela coordenou a pesquisa “Violência, Drogas e Aids nas Escolas”, que já originou os livros Escola e Violência e Escola e as Drogas (Edições Unesco, 2002). Miriam, uma das mais respeitadas especialistas do assunto no país, é também vice-coordenadora do Observatório sobre Violências nas Escolas no Brasil e consultora do Escritório das Nações Unidas para o Controle de Drogas e Prevenção ao Crime (UN ODCCP) e do Banco Mundial de pesquisas e avaliações em questões de gênero, juventude e violência.
Para ela, a representação social que as pessoas têm da escola é de um lugar tranqüilo, seguro e de paz. “Quando pensamos em qualquer coisa ligada à infância ou à adolescência, pensamos em espaços protegidos. Quando a escola passa a ser um espaço não protegido, de violência, todos sentem, não só os jovens”, lembra. “Daí para a cultura do ódio é um passo”.
Cultura de paz
Na série de reportagens que o Portal preparou sobre a cultura de paz, a pesquisadora e outros especialistas falam sobre esse assunto, que é essencial para desarmar o verdadeiro estado de guerra instalado no país. É impossível pensar em soluções para a violência sem considerar questões como a qualidade das relações familiares, a capacidade de lidar com frustrações, os valores transmitidos em casa, na escola e na mídia, o uso de drogas, o acesso à educação. É impossível falar em cultura de paz sem falar em transformação e sem questionamento de valores e comportamentos.
“Cultura de paz é um conjunto de transformações necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio governante de todas as relações humanas e sociais”, explica Feizi Milani, presidente do Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos. Ele explica que paz, ao contrário do que muita gente pensa, não significa ausência de ação, monotonia, passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua construção, que exige permanente diálogo para inverter os valores que levam à violência, como o individualismo, a competição, o ódio e o preconceito.
Fonte:http://www.educacional.com.br/reportagens/cultura_paz/default.asp


VIOLÊNCIA NA ESCOLA

O Estado de São Paulo, 15/04/2010 - São Paulo SP

Maioria de casos de bullying ocorre na sala de aula
Sociedade. Estudo com 5.168 alunos de 5ª a 8ª série mostra que 17% são vítimas ou agressores; fenômeno se alastra pela internet
Luciana Alvarez
Uma pesquisa nacional sobre bullying - agressões físicas ou verbais recorrentes nas escolas - mostrou que a maior parte do problema (21% dos casos) ocorre nas salas de aula, mesmo com os professores presentes.
Dos 5.168 alunos de 5.ª a 8.ª séries de escolas públicas e particulares de todas as regiões do País entrevistados, 10% disseram ser vítimas de bullying e 10%, agressores - 3% são ao mesmo tempo vítimas e agressores.
O estudo, feito pelo Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor (Ceats/FIA) para a ONG Plan Brasil, mostrou o despreparo das escolas e dos professores. "As escolas mostraram uma postura passiva para uma violência que acontece no ambiente escolar", afirmou Gisella Lorenzi, coordenadora da pesquisa. "Em outros países, o lugar preferencial de agressões é o pátio, onde costuma haver mais alunos e menos supervisão", disse Cléo Fante, pesquisadora da Plan, especialista em bullying. Segundo o estudo, 7,9% das agressões são feitas no pátio, 5,3% nos corredores e 1,8% nos portões da escola.
A socióloga Miriam Abramovay, da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), diz que o resultado demonstra que o estudante não se importa com a supervisão de um adulto, pois há uma banalização da violência nas escolas. "Essas agressões não são vistas como uma violência", diz. "Em geral, os professores dizem que é brincadeira. Falta um olhar perspicaz para perceber os conflitos." A pesquisa indicou também que 28% dos estudantes foram vítimas de algum tipo de violência dentro da escola no último ano e mais de 70% deles presenciaram agressões.
Quando se trata de agressões recorrentes, os meninos sofrem mais que as meninas: 12,5% deles se disseram vítimas, mas o número cai para 7,6% entre as garotas. O Sudeste é a região com mais vítimas de bullying - 15,5% - e o Nordeste, com a menor ocorrência (5,4%).
Rendimento. A principal consequência do bullying para a vida escolar é semelhante tanto para agredidos quanto para os agressores. A perda de "concentração" e "entusiasmo" pelo colégio foram as consequências mais citadas pelos dois lados (16,5% das vítimas e 13,3% dos agressores). "A violência na escola impede a plena realização do potencial das crianças", afirmou Moacyr Bittencourt, presidente da Plan Brasil.
Outros dados são que 37% dos entrevistados disseram que "às vezes" sentem medo no ambiente escolar e 13% afirmaram que nunca se sentem acolhidos. E, com a internet, insultos e ameaças via rede passaram a fazer parte da realidade dos alunos.
PARA ENTENDER - 1. O que é bullying? É qualquer tipo de agressão física ou moral entre pares (como colegas), que ocorre repetidas vezes nas escolas. A pesquisa considerou ao menos três vezes ao ano.
2. Qual a motivação para o bullying? Não há motivos concretos. Dicas para enfrentar o problema: Medo da escola - Uma criança que demonstre desconforto físico ou tristeza antes de ir para escola ou não queira participar de festas de colegas de colégio pode ser uma vítima.
Procure conversar com seu filho e com representantes da escola. Novos comportamentos - Crianças que tenham mudança brusca de comportamento - eram falantes e tornam-se quietas, por exemplo - também podem estar sofrendo bullying. Pais devem ficar atentos ainda a comportamentos agressivos Atenção e conversa - "Vítimas" e "agressores" precisam igualmente de atenção. Muitas vezes o comportamento agressivo tem motivações de insegurança e medo. O melhor caminho é mediar uma conversa franca entre os dois lados.

O Estado de São Paulo, 15/04/2010 - São Paulo SPUm novo termo para um velho problema
Cenário: Luciana Alvarez
Aprender sem medo é direito de todas as crianças, disse Cléo Fontes, coordenadora da pesquisa da Plan Brasil. E ninguém contesta essa declaração. O termo "bullying", em compensação, provoca polêmicas.
Na pesquisa, ele foi empregado para descrever agressões físicas ou verbais recorrentes e sem motivos - além do preconceito contra alguém diferente - entre colegas de escola.
Pela metodologia empregada, "recorrente" significou no mínimo três vezes em um ano letivo. Não entraram na conta agressões contra um professor ou funcionário da escola. Ficam de fora ainda as violências provocadas por desentendimentos pontuais entre os alunos.
Mesmo com tantas restrições, os números de agressores e agredidos assustam. Por ser um fenômeno de caráter social - o agressor o pratica em geral para ganhar status perante os colegas de escola -, os números de participantes indiretos devem ser bem maiores.
O argumento para se fazer um estudo sobre o bullying é justamente o fato de ser um problema grave, que acarreta prejuízos à aprendizagem e à formação psicológica das crianças, mas ainda pouco estudado.
Esta foi a primeira pesquisa nacional sobre o fenômeno, que teve impulso com a internet - fotos feitas pelo celular e campanhas em sites de relacionamento são novas armas de agressão.
Mas por que separar o bullying das outras violências no ambiente escolar? Para Miriam Abramovay, que já fez estudos sobre violência nas escolas para Unesco, Banco Mundial e Unicef e hoje coordena o setor de pesquisas da Ritla, não deveria haver distinção. "Chamar de bullying parece um abrandamento", diz. Na verdade, bullying é um termo novo para um antigo problema das escolas que ainda não foi resolvido.
O Estado de São Paulo, 15/04/2010 - São Paulo SPGoverno, prefeitura e escolas atacam problema
Governos e escolas começam a tomar consciência da gravidade do bullying e estão criando medidas para combatê-lo. A Prefeitura de São Paulo publicou em fevereiro um decreto determinando que todas as escolas da rede incluam em seus projetos pedagógicos medidas de conscientização e prevenção ao bullying. Na rede estadual, o governo entregou aos coordenadores pedagógicos material informativo sobre o problema.
"Desde 1996 trabalhamos a ideia da cultura da paz, mas no ano passado incluímos o conceito de bullying", disse Edson de Almeida, chefe da Educação Preventiva.
Nas escolas particulares, o diálogo com pais e alunos é a chave para tentar evitar o fenômeno. "Muitas vezes o problema é a afetividade das crianças. A gente trabalha isso em parceria com os pais", disse a diretora do Colégio Catamarã, Vera Anderson.
Na escola Itatiaia, as salas com apenas 15 alunos facilitam a supervisão. "Existe um bullying de cutucões e risadas. O professor precisa estar atento", diz a coordenadora Adriana Iassuda. / CARLOS LORDELO E L.A.

Folha de São Paulo, 15/04/2010 - São Paulo SPAto se tornou mais violento, diz especialista
DA REPORTAGEM LOCAL
Para Vera Zimmermann, coordenadora do CRIA (Centro de Referência da Infância e Adolescente) da Unifesp, o bullying é um fenômeno que sempre aconteceu, mas tem se manifestado de forma mais violenta também entre as meninas. A pesquisa mostra que 7,6% delas já praticaram bullying. Entre os meninos, o número é de 12%. (TALITA BEDINELLI)
FOLHA - O bullying aumentou?
VERA ZIMMERMANN -
O bullying é uma questão que sempre existiu, em todas as épocas. Geralmente acontece e se repete com crianças ou pessoas mais fragilizadas. Não é um fenômeno novo, mas temos percebido que há um aumento na conduta agressiva, também entre as meninas, o que era mais raro.
FOLHA - Por quê?
ZIMMERMANN
- Imagino que por uma mudança sociocultural. Elas hoje conseguem brigar mais.
FOLHA - Quem é o agressor?
ZIMMERMANN -
Em menor ou maior grau qualquer um agrediu e foi agredido. Mas aquele que repetidamente assume posição de agressão tem um um psiquismo muito fragilizado que precisa manter a própria autoestima diminuindo o outro. As escolas precisam intervir, mas é preciso tomar cuidado para não inibir totalmente. Pode haver conflito, gozação. Isso serve de aprendizagem para a convivência.

Edição:  Prof. Christian Messias  | Fonte:  Citadas no topo de cada matéria
Fonte: http://www.vooz.com.br/blogs/noticiarios-sobre-o-bullyng-na-escola-34839.html

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

QUANTOS PASSARAM POR AQUI