Para reflexão ...



"Uma criança, uma professora, uma caneta e um livro podem mudar o mundo."

Malala Yousafzai
Prêmio Nobel da Paz

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CULTURA DE PAZ 
VIRANDO A MESA DA VIOLÊNCIA
 
14/02/2003

por Diogo Dreyer A incidência de crimes violentos no país, principalmente envolvendo jovens em idade escolar, desperta o sentimento de que alguma coisa deve ser feita. Mas muita gente acredita que não se chega a lugar algum apenas aumentando o policiamento e com repressão. É preciso transformar a paz em uma cultura, mudando a maneira de as pessoas se relacionarem e colocando a paz como uma questão de postura e de respeito.
A série de quatro reportagens do Portal — dividida em questões fundamentais para essa discussão: escola, drogas, família e mídia — mostra como se pode criar uma cultura de paz e de que maneira algumas formas de violência atingem o Brasil, principalmente a escola.

Era tarde na Escola Estadual Coronel Benedito Ortiz quando vários alunos que estavam em recuperação aproveitavam o horário de recreio no pátio. A escola fica em Taiúva, uma cidadezinha no interior de São Paulo com aproximadamente 5 mil habitantes e que, de tão pequena, é classificada como uma daquelas cidades que nem estão no mapa.

Edmar Aparecido Freitas, violência simbólica teria levado à tragédia.
Mas um ex-aluno da escola, Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, chamou a atenção para a cidade. Naquela tarde de 27 de janeiro, ele pulou o muro, cumprimentou a zeladora e se dirigiu ao pátio. Sem dizer uma palavra, Edmar sacou de um revólver e abriu fogo contra seus ex-colegas. Recarregou a arma e recomeçou a atirar. Com os disparos, feriu sete pessoas. Em seguida, foi até a residência do caseiro e parou em frente à esposa deste, a qual, implorando para ser poupada, viu o jovem disparar um último tiro contra a própria cabeça. Horrorizados, os habitantes da cidade, bem como a opinião pública, perguntam-se: o que levou o jovem a agir dessa forma? Segundo os investigadores do crime, Edmar era “gordinho” durante a infância e boa parte da adolescência e, por isso, tornou-se alvo de chacotas por parte dos colegas. Mesmo quando conseguiu emagrecer, os outros alunos não o deixaram em paz. Isso teria sido o bastante para deflagrar a tragédia.
O delegado encarregado afirmou que o crime já vinha sendo planejado há pelo menos dois meses. Além disso, um amigo de Edmar provavelmente sabia o que estava por vir, pois foi comprar as balas juntamente com o jovem.
Em uma entrevista para o Portal, uma semana antes da tragédia, a pesquisadora Miriam Abramovay lembrava o massacre na Escola Secundária Columbine. Em 20 de abril de 1999, a pacata cidade de Littleton, no Colorado, foi palco da maior chacina em um estabelecimento escolar ocorrida até hoje nos EUA. Mascarados e fortemente armados, Dylan Klebold e Eric Harris, ambos de 18 anos, invadiram aquela escola e executaram 13 pessoas. Horas depois, cercados pela Swat, suicidaram-se.
Miriam lembrava que 17 alunos sabiam que o crime iria ocorrer, mas não foram capazes de contar a ninguém e evitar que o massacre acontecesse. “Isso provou que não havia confiança entre essa juventude e qualquer elemento da escola ou até mesmo os pais para que eles contassem o que estava acontecendo. A escola não é aberta para discussões e, muitas vezes, os adultos não escutam ou até fecham os olhos para o que se passa com os alunos”, diz.

Dylan Klebold e Eric Harris. Culto ao ódio levou ao maior massacre em uma escola nos EUA.
Não só nesse detalhe o relato da pesquisadora “antevia” o que se passou em Taiúva. Para ela, a violência simbólica (agressões verbais ou discriminação racial, por exemplo, como o problema enfrentado pelo “gordinho” Edmar) está presente nas escolas brasileiras, mas “finge-se que não está lá”. “A violência na escola sempre existiu. O que não estava lá era, por exemplo, a entrada de armas. Como vivemos numa sociedade mais violenta, isso acaba por exacerbar essas pequenas formas de incivilidade que, por menores que sejam, causam muito sofrimento”. Deixando de lado casos tão extremos, Miriam lembrou que a violência não se restringe a um problema individual, pois um aluno que é constantemente molestado tem grandes chances de não passar de ano e nem mesmo vai querer continuar indo à escola. Coincidência ou não, os crimes em Littleton e em Taiúva ainda guardam outra semelhança: tanto na residência de Edmar quanto nas casas dos estudantes americanos foram encontradas propagandas nazistas, marca registrada da cultura de ódio.
Professora da Universidade Católica de Brasília, a socióloga Miriam Abramovay se dedica ao estudo dos jovens escolarizados do Brasil. Entre muitos trabalhos que publicou, destacam-se Gangues, Galeras, Chegados e Rappers (Editora Garamond, 1999) e Escolas de Paz (Edições Unesco, 2001). Recentemente, ela coordenou a pesquisa “Violência, Drogas e Aids nas Escolas”, que já originou os livros Escola e Violência e Escola e as Drogas (Edições Unesco, 2002). Miriam, uma das mais respeitadas especialistas do assunto no país, é também vice-coordenadora do Observatório sobre Violências nas Escolas no Brasil e consultora do Escritório das Nações Unidas para o Controle de Drogas e Prevenção ao Crime (UN ODCCP) e do Banco Mundial de pesquisas e avaliações em questões de gênero, juventude e violência.
Para ela, a representação social que as pessoas têm da escola é de um lugar tranqüilo, seguro e de paz. “Quando pensamos em qualquer coisa ligada à infância ou à adolescência, pensamos em espaços protegidos. Quando a escola passa a ser um espaço não protegido, de violência, todos sentem, não só os jovens”, lembra. “Daí para a cultura do ódio é um passo”.
Cultura de paz
Na série de reportagens que o Portal preparou sobre a cultura de paz, a pesquisadora e outros especialistas falam sobre esse assunto, que é essencial para desarmar o verdadeiro estado de guerra instalado no país. É impossível pensar em soluções para a violência sem considerar questões como a qualidade das relações familiares, a capacidade de lidar com frustrações, os valores transmitidos em casa, na escola e na mídia, o uso de drogas, o acesso à educação. É impossível falar em cultura de paz sem falar em transformação e sem questionamento de valores e comportamentos.
“Cultura de paz é um conjunto de transformações necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio governante de todas as relações humanas e sociais”, explica Feizi Milani, presidente do Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos. Ele explica que paz, ao contrário do que muita gente pensa, não significa ausência de ação, monotonia, passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua construção, que exige permanente diálogo para inverter os valores que levam à violência, como o individualismo, a competição, o ódio e o preconceito.
Fonte:http://www.educacional.com.br/reportagens/cultura_paz/default.asp


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