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Malala Yousafzai
Prêmio Nobel da Paz

segunda-feira, 19 de abril de 2010

CONHEÇA ALGUNS DOS PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS CAMARONESES

Direitos Humanos


A fome se soma à lista de desgraças

Sylvestre Tetchiada

Yaoundé, 14/10/2005, (IPS) - Encurralado por desastres naturais, que não dão trégua, e pela pesada carga que representa sua dívida, Camarões suporta uma crise financeira que coloca em dúvida se cumprirá as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Camarões se comprometeu com essas metas, adotadas em setembro de 1999 por 189 países, as quais incluem reduzir a proporção de pobreza extrema à metade, até 2015. Entretanto, a crise econômica que vive levou a uma redução dos investimentos públicos e um aumento do endividamento com as instituições financeiras internacionais.
Camarões é um país relativamente rico. Possui consideráveis jazidas de petróleo, gás natural, bauxita, ferro, florestas tropicais e tem um grande potencial de recursos hidrelétricos. Além disso, produz madeira, borracha, cacau, café, cana-de-açúcar e alumínio. Apesar disso, devido ao peso excessivo da dívida externa, a economia nacional está paralisada. Segundo dados oficiais, o endividamento passou de US$ 2,9 bilhões, em 1983, para US$ 8,5 bilhões, em 2004. Camarões está sendo obrigado a acrescentar a fome à sua lista de males, a qual afeta muitos de seus 16,5 milhões de habitantes.
"Aproximadamente 250 mil pessoas vivem na probreza na província de Extremo Norte, uma das regiões mais pobres do país, e mais de um milhão de pessoas precisam de ajuda de emergência", afirmou à IPS Justin Bagirishya, diretor regional em Camarões do Programa Mundial de Alimentos (PMA ), da Organização das Nações Unidas. "Em outubro, o PMA enviará rações de emergência aos necessitados", anunciou. A província Extremo Norte está situada na região do Sahel (ao sul do deserto do Saara), a mil quilômetros de Yaoundé, a capital do país. Esta província é vulnerável a desastres como inundações na época das chuvas e longas secas no restante do ano, que podem durar até nove meses.
Segundo o Ministério da Agricultura, em 2004 Extremo Norte recebeu pouquíssimas chuvas, o que significou uma redução na produção agrícola de 200 mil toneladas em relação às colheitas do ano anterior, que haviam somado 7,45 milhões de toneladas. "A recorrência da insegurança alimentar nos últimos dez anos nesta região do mundo faz com que as Metas do Milênio sejam um propósito por demais hipotético", afirmou Germaine Bitanga, funcionária do Ministério de Assuntos Sociais. Esta província produz milho, sorgo, arroz, mandioca, batata, batata-doce, banana, feijão, vegetais e tomate. Entretanto, uma alta porcentagem desta produção é exportada para países vizinhos, como Gabão e Guiné Equatorial.
No dia 24 de setembro, o PMA começou a enviar ajuda alimentar aos nove distritos desta província, fazendo uso de um fundo de US$ 880 mil fornecido pela França. Mas essa quantia não será suficiente para financiar a totalidade da operação de ajuda, que vai durar um mês e custará US$ 2 milhões. As oito Metas de Desenvolvimento do Milênio incluem a redução pela metade do número de pessoas que sofrem pobreza extrema e fome, até 2015. No entanto, atualmente, mais 1,2 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia (limite da linha internacional de pobreza extrema) e 800 milhões ainda passam fome, segundo o PMA.
Os economistas temem que a dívida externa complique ainda mais os esforços de Camarões para atingir as Metas do Milênio. "Em duas décadas, a dívida externa de nosso país aumentou de US$ 2,9 bilhões, em 1983, para pouco menos de US$ 10 bilhões, em 2005", disse à IPS o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de Yaoundé II, François Clin Nkoa. "Infelizmente, o processo de desenvolvimento mantém seu ritmo, e o país patina ainda mais nos meandros da pobreza sem que ninguém saiba realmente onde e como é gasto o dinheiro pedido emprestado", acrescentou.
"Camarões sempre recebeu grandes quantidades de assistência", disse à IPS Jacques Hiol, um advogado em Yaoundé. "Mas parece que essa ajuda contribuiu para enfraquecer ainda mais o crescimento do país e degradá-lo da categoria de país com renda média para a de país pobre muito endividado". Em conversa por telefone com a IPS, um funcionário do Ministério das Finanças, que não quis se identificar, rechaçou tais afirmações. Segundo afirmou, o dinheiro dos empréstimos foi usado para financiar projetos de desenvolvimento, como a construção, nos anos 80, da estrada que une a capital à cidade costeira de Douala (capital financeira do país), de um aeroporto internacional e de muitas escolas e hospitais nas duas cidades.
A análise econômica "Contas Nacionais 1992-2003", apresentada pelo Instituto Nacional de Estatísticas de Yaoundé, em agosto, mostra um cenário sombrio da economia camaronesa. Devido à vulnerabilidade de algumas regiões às catástrofes naturais, Camarões não será capaz de reduzir à metade a porcentagem de pessoas na pobreza nem de fornecer serviços de saúde a mulheres e crianças, afirma esse estudo. De acordo com o Informe de 2005 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cerca de 50% da população local vive na indigência.
"A carga insustentável dos serviços da dívida e a incapacidade da PPME (iniciativa para a redução da dívida dos países pobres muito endividados) para resolver este problema se somam ao empobrecimento do povo de Camarões", disse Jeanne d`Arc Teumo, presidente do Programa Integrado Contra a Pobreza, uma organização não-governamental com sede em Yaoundé. "Se não se fizer algo, não poderemos eliminar a pobreza, nem em 2150", acrescentou. Supõe-se que Camarões deveria se beneficiar do programa PPME, de alívio da dívida para os países pobres muito endividados, lançado em 1996 pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que propõe o cancelamento total ou parcial do endividamento com instituições financeiras multilaterais. Essa iniciativa não teve os resultados esperados devido aos rígidos condicionamentos exigidos dos países beneficiários, afirmam os críticos.
Além disso, a sociedade civil camaronesa reclama do governo mais energia para lutar contra a corrupção e garantir a independência do sistema judicial, que deve investigar e levar a julgamento altos funcionários acusados de apropriação indevida e malversação de fundos. "Nossa estratégia é melhorar a administração, combater a corrupção, fortalecer a democracia e levar adiante programas e políticas de desenvolvimento apropriadas", disse á IPS Frederic Nyambi, funcionário do Ministério do Planejamento.
No horizonte aparece um sinal que traz esperança. Camarões é uma das 20 nações da África e da Ásia que podem se beneficiar com o cancelamento completo de suas dívidas, segundo as promessas da última Cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, feitas em junho e confirmadas nas reuniões de setembro do Banco Mundial e do FMI. (IPS/Envolverde)

FONTE:http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=1094

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