Para reflexão ...



"Uma criança, uma professora, uma caneta e um livro podem mudar o mundo."

Malala Yousafzai
Prêmio Nobel da Paz

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O que falta para a juventude hoje?

· O que falta para a juventude hoje? 'Estado' reuniu oito jovens para debater temas como família, drogas e mercado de trabalho

O Estado de São Paulo, Cidades, Domingo, 7 de setembro de 2003

Oito jovens reunidos durante 90 minutos. Tempo suficiente para perceber a diversidade de opiniões, ideais e projetos de vida. No fim dos anos 60, a juventude erguia a bandeira da liberdade. Hoje, num mundo de idéias políticas e comportamentais mais difusas, as bandeiras podem ser várias, pautadas por temas como educação, emprego, violência e desigualdade social, só para citar alguns. Na semana passada, o Estado promoveu o encontro dessa galera. Galera de tribos diferentes. Tribos de realidades distintas. Em comum, o desejo de mudar.
São jovens com histórias. Isis Lima Soares, de 16 anos, acaba de voltar do Marrocos, onde representou o Brasil numa conferência da juventude sobre desenvolvimento sustentável. Há oito anos, fundou a ONG Cala Boca Já Morreu, para dar voz a crianças e adolescentes. Dois anos mais novo, Paulo Luiz Souto e Silva Filho também já viajou o mundo representando o País. É "atleta" da CyberGames e disputa campeonatos de jogos eletrônicos. Diego Andrade da Silva, de 16, integra o grupo de hip hop Banca dos Loucos. Mora na periferia da zona sul e ajuda a mãe no orçamento com o Bolsa-Escola.
Bruno Ramos da Silva, de 16, é aprendiz na Companhia Metropolitana de Habitação e, nos fins de semana, entrega pizza. Auxilia jovens em situação de risco no Centro de Defesa da Criança e do Adolescente, no Belém.
Camilo Bousquat Árabe, de 14 anos, é engajado em projetos sociais desenvolvidos pela escola e faz parte do Fórum da Criança e do Adolescente do Butantã. Silvana Forsait, de 16, faz parte do movimento juvenil judaico, que desenvolve atividades de lazer e educação para crianças e adolescentes.
Angélica dos Santos, de 14, freqüenta as missas dominicais e participa de um grupo de jovens na Igreja São José Operários. Faz parte do Arrastão - Movimento de Promoção Humana. Aline Mastromauro, de 17, é filiada à União da Juventude Socialista e ao PC do B. Já sonha com uma vida política.

ENGAJAMENTO

· Isis - Falta muita informação para os jovens. Você percebe que eles não sabem de muita coisa, não participam de projetos nem sabem o que está acontecendo. Quando têm acesso, é muito superficial. Se soubessem mais sobre seu País, cidade, bairro em que vivem desde que nasceram, eles se envolveriam muito mais.
· Silvana - Não é que falta acesso à informação. A gente tem jornal, revista, internet e televisão. Só que você tem de saber escolher sua fonte. Agora, ninguém ganha informação sem querer ter informação.
· Bruno - É preciso montar mais projetos, dar mais empregos porque muitos jovens estão querendo trabalhar e, se não conseguem, vão fazer coisa errada, querer ganhar a vida fácil, a chamada vida louca.
· Aline - O que está faltando para a juventude hoje? É começar a perceber a questão de sua americanização hoje. O pessoal só quer saber de Back Street Boys, Spice Girls, não quer entender o que é o Brasil, nem ouvir Gilberto Gil, Caetano Veloso. Aí, ele acaba se perdendo, fugindo da nossa realidade. Temos de parar para pensar o que está errado não só para gente, mas para a juventude.

ESCOLA

· Diego - Quando chego na escola, não me sinto bem porque as cadeiras são todas quebradas. É a maior zona, tem professor que chega e fica conversando com os alunos e não dá matéria. Quando um aluno quer ir embora ele deixa e ainda dá presença. O diretor não tem nem coragem de aparecer.
· Isis - Desde os 8 anos, já passei por quatro escolas. Nenhuma delas conseguiu entender o que eu faço fora da escola, no (projeto) Cala Boca Já Morreu. Se a gente passa 11 anos numa escola e ela não entende que se aprende fora dela, desestimula, cansa, chateia. Lá é obrigado a sentar um atrás do outro, olhando para a nuca da pessoa que está na frente e nunca nos olhos. Não há diálogo.
· Angélica - Na minha, os professores são muito distantes do aluno. Tem vezes que a gente fica lá olhando um para a cara do outro. Não estou sendo preparada para muita coisa.
· Camilo - Se não fosse minha escola, eu não tinha cabeça. Ela me formou desde que tinha 3 anos e não é só matéria. Não é só vestibular. Tem de tudo, tem trabalho de projeto social, esporte, lazer. A escola me ensina a ver melhor as coisas.


MERCADO DE TRABALHO

· Paulo - Se eu for arrumar um trabalho e na hora da entrevista disser que viajei para o exterior para jogar (videogame), aí o cara vai dizer "e...". Então, tenho de parar e pensar que o cara não vai me dar um emprego porque não estudei, só fiquei no jogo. Se não pensar no que vou fazer na universidade, fica difícil arrumar um emprego.
· Silvana - O mercado de trabalho não é imprescindível para o jovem, mas é para o adulto. Concordo que tem de pensar no hoje, mas tem de viver pensando no amanhã. Se não agir assim, vai ser muito difícil conseguir seu emprego.
· Aline - A universidade não deve servir só para o mercado de trabalho, mas para formar cidadão. Como a escola não tem de formar só para o vestibular.
· Isis - Se uma escola só forma para o vestibular, então, caramba, o que a gente está fazendo aqui? Acho que sou mais que um bonequinho que vai produzir para os outros consumirem. Isso talvez explique a falta de amor a uma causa. A gente está sempre se formando para o futuro, para o futuro. Pô, e o agora?
· Diego - Para falar a verdade, nunca pensei nessa coisa de vestibular. Penso na música.


FAMÍLIA

· Bruno - O que mais me deixa alegre ao levantar é ver minha mãe sorrindo e me dar um beijo pra eu ir trabalhar e depois voltar, ver a mesma cara dela e ir pra escola. Só isso pra me deixar feliz mesmo.
· Camilo - Uma das coisas que mais gosto é perceber que tô sentindo saudade, porque sinto que aquilo tem valor pra mim. O jovem sempre tenta negar, dizer que não sente saudade dos pais. Numa viagem, cheguei para os meus amigos e falei: 'Pô, tô com a maior saudade da minha mãe.'

DROGAS

· Paulo - Depende da pessoa. Se um cara chegar oferecendo drogas e a cabeça dele for bagunçada, ele vai querer. Acho que essas paradas de beber antes dos 18 não são uma boa.
· Bruno - Se a pessoa quiser se envolver, ela se envolve. Dou força pra não entrar, mas se não adiantar, não sou eu que vou mudar a cabeça da pessoa.
· Diego - Lá no meu bairro tem moleque que fuma e a gente fica perto. Eles ficam dando idéia: 'Não faz esses negócios aqui que eu sei que o que tô fazendo é errado.' Camilo - Tem muito preconceito entre o jovem. O cara pensa: 'Ali tem maconha, tem bebida, então, não vou.' Acho que não pode ter isso. O cara pode fumar maconha, mas ser um puta de um gente fina, tem muito cara que não fuma e é folgado ou agressivo.

FUTURO

· Bruno - Queria virar presidente, diretor de onde trabalho, a Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação). Me formar engenheiro civil e estar no cargo dele.
· Camilo - Sei lá, independentemente de qual for a escolha, pretendo continuar a tentar mudar. É muita desigualdade. Aqui temos três situações: tem gente de escola particular que adora seus colégios e tem de escolas públicas que falam que escola pública não funciona.
· Isis - Não sei dizer o que quero daqui a dez anos, só que em dez anos quero fazer muitas coisas. Queria muito jornalismo ou relações internacionais. Quero ter experiência com governo para mudar as políticas públicas para a juventude.
· Aline - Quero fazer jornalismo e pedagogia. Mas quero mesmo é seguir a carreira política, ser vereadora, depois deputada e por aí...
· Paulo - Fazer engenharia da computação, trabalhar no exterior, ajudar a criar novas tecnologias e ser uma pessoa feliz.
· Silvana - Ser oncologista pediátrica. É impossível uma pessoa fazer a felicidade do mundo, só que ela pode ajudar um pouco, então, quero fazer o que estiver ao meu alcance.
· Angélica - Eu não tenho muita idéia do que vou fazer daqui a dez anos. Gosto de desenhar... mas o que vier, o que for pra ser...
· Diego - Quero estar num show com o meu grupo, com muitas pessoas e que pelo menos uma delas se conscientize do que eu tô falando.


(Adriana Carranca e Eduardo Nunomura)
Fonte:http://www.gtpos.org.br

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