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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Encolheram a infância

As crianças trocaram brinquedos por temas do mundo adulto. Sem suporte familiar, pode ser desastroso

Paula Mageste Com reportagem de João Luiz Vieira e Martha Mendonça

A carioca Júlia Távora acorda todos os dias às 6h30 e toma leite com torradas na varanda de sua suíte.. Depois do banho, veste jeans Levi's, camiseta Gap e calça tamancos Melissa. São altos, como 90% de seus sapatos. "Queria ser maior", confessa. Ela arremata a produção com uma borrifada do perfume Polo, de Ralph Lauren, e imensos brincos de argola. Às 7, celular em punho, já está na rua, com disposição para enfrentar uma agenda cheia, que pode terminar num restaurante japonês às 22 horas. Júlia tem 13 anos, mas desde bem pequena mantém essa rotina quase de adulto.
Além dos estudos na Escola Americana, em inglês, ela joga vôlei, participa de um grupo de cheer leaders (meninas que fazem coreografias com pompons coloridos) e tem aulas de jazz. Em casa, na suíte equipada com telefone, laptop de última geração, impressora colorida e CD player, faz a lição de casa, que chama de homework, e conversa com as amigas pelo telefone ou pela internet, usando o programa de comunicação em tempo real ICQ. Trilha sonora: Mariah Carey e Alanis Morrissette. Assiste a seriados como Felicity e Friends, que tratam de relacionamentos de jovens adultos. Sua mãe, a empresária Marisa Vianna, de 41 anos, a chama carinhosamente de "peruinha". Júlia discorda. Acha que é mais madura que outras meninas. "Algumas têm assuntos infantis", critica.
Muitos compromissos também lotam a semana de Maria Paula Marques Macedo, de 7 anos, do Recife. "Tenho agendinha para acompanhar meu dia. TV, só no fim de semana", explica. As duas meninas resumem bem, no contexto da classe média, o que vem ocorrendo com os cidadãos de até 9 anos (20% da população brasileira) e entre 10 e 14 anos (11%). Ser criança não é mais ficar sujo, correr descalço pela rua e fazer travessuras. Esse ideal romântico de infância não cabe num mundo violento e transformado velozmente pela tecnologia. A revolução é irreversível, e suas conseqüências imprevisíveis. Resta aprender a lidar com esse estado de coisas, para que a "nova infância" possa, a seu modo, cumprir o devido papel na formação do indivíduo.
A maioria dos especialistas acredita que está havendo um encurtamento da infância. A adolescência começa mais cedo, com a troca de bonecas e carrinhos por elementos do mundo adulto. "Brincar de boneca é coisa de criança, e eu sou uma pré-adolescente", sentencia a paulistana Maria Paula Oliveira, de 10 anos. A atriz global Cecilia Dassi, de 11, e seu irmão Giordano, de 8, poderiam participar de qualquer roda de conversa. Têm opiniões formadas sobre os ataques terroristas nos Estados Unidos, a renúncia de Jader Barbalho e os discursos do presidente sobre racionamento de energia. "Sou evoluído", diz Giordano. A mãe de Cecilia, Elenara, de 33 anos, conta que a filha não sai de casa sem passar batom, além de ter uma tendência a "psicologizar" as personagens que interpreta, como a Zoé, de A Padroeira.
Do ponto de vista biológico, essa antecipação da adolescência vem ocorrendo progressivamente desde a Revolução Industrial. O pesquisador inglês J. Tanner sistematizou dados obtidos em registros antigos e tirou conclusões sobre o que chamou de aceleração secular do crescimento e da maturação biológica. Por volta de 1830, a idade média da menarca (primeira menstruação) era 17 anos. No começo do século XX, baixou para 14. Hoje, é 12 - as meninas menstruam pela primeira vez nove meses antes que as mães.
Segundo o pediatra e psicoterapeuta de adolescentes Eugenio Chipkevitch, do Instituto Paulista de Adolescência, há várias explicações para essa antecipação da maturação biológica ao longo de dois séculos. As mais expressivas são a melhora na nutrição, com mais proteínas na dieta, o aumento da temperatura média do planeta, os progressos da medicina (vacinas e antibióticos, por exemplo) e a diminuição do trabalho infantil. O conceito de criança, como um ser em formação que necessita de atenção e cuidados especiais, surgiu no início do Renascimento. Na Idade Média, os pequenos eram tratados como estorvos improdutivos. Antes da Revolução Industrial, eram considerados miniadultos e tinham uma série de atribuições.
Nos últimos 50 anos a infância sofreu mudanças que estão mais relacionadas a estímulos psicossociais, resultantes do meio em que se vive. Os impulsionadores da transformação foram a TV, a nova estrutura da família e, a partir da década passada, a popularização das novas mídias. Mais que ter acesso a todo tipo de informação, as crianças estão indiscriminadamente expostas a elas. Professor do Departamento de Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York e autor de O Desaparecimento da Infância, Neil Postman acredita que caíram as fronteiras entre crianças e adultos. Os maiores sintomas são a erotização precoce e o aumento da participação de menores nos índices de criminalidade. "O período da meninice, entre os 7 e os 10 anos, está em extinção", diz.
É preocupante. É nessa etapa da vida que a criança desenvolve conhecimentos e valores, aprende a se relacionar e a perceber os próprios sentimentos. Entende o limite entre o público e o privado. Para isso, precisa de carinho, de brincadeira e de ócio. Brincar no computador vale, desde que seja apenas uma entre várias possibilidades. Até os 6 anos, é fundamental estimular atividades que envolvam o corpo. Mas o último relatório do MEC sobre a educação infantil no Brasil mostra que as escolinhas têm mais livros que brinquedos.
O encurtamento da infância não é só uma questão de tempo, mas de temática. As crianças fazem muito as mesmas e poucas coisas. "Estão vivendo o mundo do adulto, direcionadas para o consumo e para o computador", afirma a psicóloga Rosely Sayão, diretora da revista Crescer. "Isso deixa pouco tempo para que elas se expressem, exponham suas angústias por meio de uma brincadeira ou consigam elaborar suas experiências", alerta.
O mundo infantil, por sinal, ficou confinado a espaços fechados como o shopping, as casas de diversões eletrônicas e o próprio quarto. Nele, as crianças recebem amigos, passam horas entre games e internet, fazem as tarefas. Os decoradores tiveram de criar projetos mais afinados com essa realidade. Ursinhos, babadinhos e lacinhos são exclusividade dos bebês. A designer Carolina Szabó conta que as crianças querem tudo funcional: bancada de trabalho, nichos para computador, som e TV, cama extra para hóspede. Opinam. Sabem o que querem. Se os pais hesitam, decidem sozinhas.
Elas influenciam os pais ou consomem diretamente R$ 50 bilhões por ano. Somente na indústria de brinquedos, são R$ 900 milhões. Esse mercado cresceu 8% em 2000, porque soube enxergar a nova criança e oferecer-lhe brinquedos mais interativos. As meninas largam a boneca mais cedo. "Depois dos 9, só se for escondido", afirma o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Sinésio Batista da Costa. "Competimos com roupas, sapatos e cosméticos." A boneca tem de ser glamourosa como uma top model e trocar de roupas várias vezes. Neste ano, serão confeccionados 250 milhões de vestidinhos de boneca, contra 80 milhões de peças em 1996. Dá 1,5 vestido por habitante.
O mercado editorial pegou carona no impulso consumista das crianças, proporcional ao dos adultos de hoje. O editor Paulo Rocco trouxe para o Brasil Harry Potter, um dos maiores sucessos editoriais do mundo. Os três volumes da série venderam mais de 800 mil exemplares no Brasil. São tijolaços de mais de 300 páginas, sem nenhuma ilustração, surpreendentemente devorados por leitores de 8 anos. Harry Potter à parte, Rocco informa que o conjunto da literatura infantil cresceu entre 30% e 40% nos dois últimos anos. De cada 150 títulos que lança, 32 são para esse público. A coleção de maior sucesso na editora é a Rua do Medo. "Os leitores de até 12 anos querem suspense, terror e aventura", diz Ana Martins, coordenadora editorial da divisão Rocco Jovens Leitores. "As crianças estão menos ingênuas e os contos de fadas não interessam tanto. O vilão faz mais sucesso que o mocinho."  (...)
Sinal dos tempos. O encurtamento da infância apresenta à criança temas para os quais ela talvez ainda não esteja preparada. E não se trata apenas da TV. A própria escola está antecipando experiências. Crianças começam a ser "sensibilizadas" para a alfabetização aos 3 anos. Muitas precisam fazer "vestibulinho" para concorrer a uma vaga numa boa escola, como Visconde de Porto Seguro ou Santa Cruz, em São Paulo, e o Santo Inácio, no Rio de Janeiro. Competição e preocupação com desempenho não deveriam fazer parte do universo infantil. Mas fazem e são estressantes, conforme pondera a diretora pedagógica do Porto Seguro, Sonia Bittencourt. "Temos mais interessados que vagas, e o teste é a forma de resolver isso", justifica. "Tentamos tornar a experiência menos traumática, trabalhando com os pais para que não passem sua ansiedade aos filhos."
O papel da escola ganha importância sem parar. As crianças começam os estudos cada vez mais cedo, fazem ali boa parte de suas amizades e ali esperam encontrar as respostas que faltam em casa. Passam pouco tempo com os pais e nem sempre a comunicação com eles flui. "A escola deve ampliar o repertório da criança, apresentar novidades, impor limites", assinala Sonia. O Porto Seguro oferece educação sexual a partir da 4a série e promove encenação de peças de teatro e concertos de música clássica. "Ninguém nasce odiando Beethoven e adorando as letras imorais do É o Tchan", reforça.
Percebida na cópia do jeito adulto de se vestir, nas danças sensuais e num desejo descabido de autonomia, a erotização precoce é o sintoma mais gritante de um fenômeno que vem sendo estudado pela psicóloga Maria Aznar, com doutorado em andamento na Universidade de Valência, na Espanha. Segundo ela, comportamentos adolescentes, principalmente em meninas, estão ocorrendo antes mesmo do início da puberdade, que é quando a criança apresenta os primeiros sinais de maturidade física. Isso pode levar a mau desempenho na escola, dificuldade nos relacionamentos, uso de drogas e gravidez precoce. A psicóloga Rosely Sayão concorda com a colega. "Pular etapas tem um custo. Os buracos na formação aparecem depois."
Os descontroles talvez tenham uma explicação mais simples do que se supõe: mude o mundo quanto mudar, ser pai ou mãe vai continuar significando educar. "Muitos desajustes vêm da permissividade dos pais, que têm culpa por ser tão ausentes", afirma a psicopedagoga Marilda Ribeiro, da PUC de São Paulo. "Eles não querem desgastar o pouco tempo que passam com os filhos dizendo não", acrescenta Rosely Sayão. Mas isso deforma. "Os pais têm de ser ativos e exercer uma influência tão forte sobre a criança quanto todas as outras que ela inevitavelmente receberá", reforça Marilda.
É o que tenta fazer Cibele Costa, de 37 anos, mãe de Ulisses, de 5, e André, de 12. "Não posso impedir que eles vivam, mas meu papel é avaliar riscos, não deixar que se exponham a situações para as quais não estão preparados", pondera. "Permito que eles tomem decisões com base no leque de opções que eu ofereço." Cibele proíbe determinados programas, não superagenda os meninos e faz questão que eles sintam que a casa da família é um espaço que pertence também a eles. E, claro, prepara-se para situações cada vez mais comuns hoje em dia. "Há dois anos, André perguntou o que era sexo oral no meio do almoço", lembra. "Tive de conter a surpresa e explicar."
Quando os pais não desempenham essa função de filtro entre o mundo e os filhos, os problemas aparecem. Os consultórios estão cheios de crianças com males de adultos, como enxaqueca, obesidade, ansiedade e estresse. Mas também há casos em que a família está atenta. Natália Assumpção mal completou 10 anos e já desconcerta todo mundo. O pai, Eduardo Assumpção, acha que ela tem inteligência emocional. A mãe, Vera Afonso, tenta ajudá-la a se relacionar melhor, pois acredita que ela intimida crianças da mesma idade e também os adultos. Seus comentários embutem uma ironia fina. Uma vez, ouviu uma amiga dos pais comentar que tinha conseguido fazer as crianças tirar uma soneca à tarde. Não perdoou: "Engraçado que a hora mais feliz para os pais seja quando os filhos dormem".
No Colégio São José, na Tijuca, no Rio, suas redações são famosas. Numa delas, reescreveu a saga de Cinderela, incorporando elementos como uma lava-louças, um concurso na TV e uma moto Kawasaki Ninja para levar a moça ao baile. A história, segundo Natália, terminou assim: "O sapato caiu no meu pé como uma luva. Então, eu e o príncipe não nos casamos e fomos felizes para sempre". É, as crianças mudaram.


Fonte: Eugenio Chipkevitch, diretor do IPA


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Um abraço,

Profª Francisca






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